 

Emma Darcy 
Um caso especial
 
Ttulo: Um caso especial
Autor: Emma Darcy 
Ttulo original: Having Leo's Child
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000
Publicao original: 1999
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Bruna
Estado da Obra: Corrigida

Ela  sensual, bem-sucedida e... est grvida!

"Teri, este  o passo que vai mudar sua vida! Voc vai se casar comigo porque esta  a melhor soluo para um casal apaixonado que vai ter um filho. Vamos cuidar dele juntos." Jim avanou ainda mais. Tomou-a nos braos e deu-lhe um beijo envolvente e amoroso. Teri ento esqueceu por um momento seu receio de casar com aquele homem. Estava em dvida se Jim realmente a amava, pois, antes de saber da gravidez, ele nunca mencionara a palavra amor. Seria o vnculo criado pelo beb suficiente para lev-los ao altar?





CAPTULO I

Pela primeira vez na vida Teri sentia-se uma mulher por inteiro, em total entrega. Isso a deixava fascinada e disposta a ir at o fundo da experincia com Jim Kingston, pouco importando que o conhecesse h menos tempo que o recomendvel, nesses casos.
Dinmico, sensual e bonito, Jim era acima de tudo um homem desejado por ela. Teri no podia imaginar at onde esse desejo poderia lev-los quando o viu entrar pela primeira vez em seu restaurante. Foi uma atrao  primeira vista. De imediato, e sem pudor, tambm desejou se entregar quele homem. No segundo contato que tiveram, o sentimento foi o mesmo.
E agora, na terceira vez, via-se em uma situao bastante especial. Desejava estar com ele mais intimamente. Nem que fosse apenas um encontro, e nada mais. Uma noite, apenas. Sabia que nada nem ningum a deteria. Ia se envolver com aquele homem.
Os ltimos clientes haviam sado havia pouco e os dois funcionrios do restaurante preparavam-se para ir embora.
Em pouco tempo, estaria a ss com Jim.
Desde que ele chegara para jantar, naquela noite, seu corao comeara a bater com fora. Pura expectativa de que um provvel encontro fosse finalmente acontecer.
Durante a refeio, j tinham trocado olhares intensos, furtivos e cmplices. E isso aumentara a tenso. O desejo de intimidade.
Quando o ltimo funcionrio travou a porta principal, tudo aconteceu muito depressa.
Jim aproximou-se com doura, e o primeiro beijo foi profundo. A ponto de Teri entregar-se sem reservas, com sofreguido. Dali seguiram para o apartamento dela, localizado no andar de cima.
Ao subir a escada, Jim a enlaara pela cintura. At a metade do caminho, foram galgando juntos os degraus. Mas, a partir de um determinado ponto, Teri fora levantada por ele, e carregada no colo. Agarrada ao pescoo largo, ela o beijava na testa, no cabelo. Enquanto isso, os lbios masculinos procuravam seus seios.
Aos poucos Teri absorvia o perfume de Jim e sentia o sabor cido de sua pele. Sem se dar conta de onde se encontrava, Jim mergulhara ainda mais os lbios no ombro daquela mulher sensual e surpreendente.
 Qual a porta?  sussurrou ele.
 A primeira  direita  respondeu Teri, com a sensao de estar vivendo um sonho maravilhoso, do qual nunca mais gostaria de acordar.
  Aqui?
 Isso mesmo  respondeu ela, ansiosa.
Jim empurrou a porta com firmeza, e depois de dois passos acomodou-a sobre a cama. E em vez de lanar-se sobre o corpo feminino, como Teri esperava, ficou a observ-la deitada, o olhar lnguido. Depois aproximou-se e fez com que o desejo de ambos se reacendesse, ao beij-la de novo. Teri o agarrou pela nuca e puxou-o, ansiosa, levando-o para mais perto.
Suas mos queriam tocar todas as partes do corpo masculino, sentir-lhe a virilidade da cabea aos ps. Decidiu tirar as roupas de Jim, mas por um instante hesitou, e mudou de idia. Nunca tinha sido beijada daquela forma intensa e penetrante. Jim a seduzia com o movimento da lngua, dos lbios, dos braos, do peito e dos ombros. Uma exploso jamais imaginada por Teri.
 Estou me sentindo como um foguete indo para os cus, Jim. O que est acontecendo conosco?
 No consigo explicar  respondeu ele.  Mas o que sinto  que estamos mesmo num foguete. Seguindo juntos em direo ao paraso.
Ento a puxou para o lado e fez com que as mos deslizassem por debaixo da blusa. Retirou-a, enquanto Teri fazia o mesmo com a camisa dele, e depois com a camiseta.
Ambos ficaram nus da cintura para cima.
As mos masculinas, grandes e quentes, buscaram os seios e ali ficaram, sensuais e lentas, acariciando, percebendo, provocando... De olhos fechados, ele sentia o formato dos peitos, a ponta dos mamilos.
Suspirando, ela procurou o calor da pele viril. Acarinhou-lhe o peito, o ventre, os ombros e as costas. Era como se estivesse tateando, no escuro, os caminhos da felicidade.
O quarto, sem iluminao, fazia com que se sentisse  vontade. Gostava daquela penumbra. O interessante fora que nunca conseguira se entregar a Wayne no escuro...
Por um momento precisou esquecer as carcias que fazia, a fim de banir o ex-marido do pensamento. Jim era outro tipo de homem. No havia comparao possvel.
Ele j no podia esperar muito para sentir todo o corpo de Teri junto ao seu. Viu que ela depressa se desvencilhava da saia e tratou de se livrar da cala jeans, das meias e dos sapatos. Em poucos minutos no havia nada entre os dois. Nada impedia o contato direto das peles ardentes. Podiam, agora, explorar todas as diferenas e semelhanas, abrindo as portas da percepo, da extrema sexualidade.
Teri percebia que Jim a mantinha num clima sensual, intenso. Era como se, a cada movimento, fosse envolvida por ondas e ondas de excitao. Ouvia-lhe os murmrios, saboreava cada beijo, sentia cada centmetro das coxas e dos braos que a estreitavam, delicia va-se com as carcias...
Tamanha entrega, total, completa, encorajavam-na mais e mais. Teri, alucinada de desejo, reagia com a mesma intensidade, o mesmo ardor.
Fizeram amor vezes sem conta, e a cada nova investida o apetite de ambos parecia renovado. Teri j perdera todos os escrpulos, e sentia que no havia limite para ambos. Pareciam insaciveis.
Dormiam de tempos em tempos, e acordavam fascinados um com o outro. Um simples toque, mesmo que inadvertido, dos corpos, os acendia. No se sentiram cansados nem mesmo quando a manh anunciou que se aproximava. E, quando a luz natural penetrou aos poucos no quarto, tornando os corpos finalmente visveis, renovou-se entre eles o fascnio pela descoberta de pequenos detalhes, curvas e posies erticas. Cada novidade os deixava ainda mais excitados.
Jim repousou o brao por trs do ombro de Teri enquanto a mo acariciou o seio direito. Ela podia observar um lado do rosto do companheiro, e admirou a cor dos olhos, entre o azul-piscina e o marinho. Por incrvel que parecesse, era a parte do. corpo masculino que mais a atraa. Talvez porque parecesse a sntese do resto, porque fosse a janela da alma, porque acrescentasse um toque mgico ao rosto de traos marcantes.
Os cabelos eram escuros, cortados baixo, meio espetado. O nariz afilado contrastava com a boca um tanto larga, e o lbio inferior parecia mais grosso do que o normal.
Teri no se considerava uma mulher de muita beleza, mas era atraente o suficiente para no ver grandes defeitos em sua figura. Na juventude, percebia que chamava a ateno dos garotos. Mas no se dera conta disso durante os anos em que ficara casada com Wayne. Durante muito tempo esquecera a prpria sensualidade, e continuou assim depois que o casamento fracassou. Mas, quando conheceu Jim, percebeu que passara a se ver de outra maneira, a valorizar seu corpo, sentindo-se mais atraente.
Jim lhe lanou um sorriso charmoso.
 Sentiu-se bem?
 Muito...
 Tambm me senti muito bem, a cada momento. Voc  maravilhosa, Teri. Juro.
 Sinto o mesmo em relao a voc.
 H uma coisa que gostaria de lhe dizer.
Haveria muitas a falar, pensou Teri. Afinal, embora tivessem agido com tanta intimidade, a ponto de passar doze horas na cama, mal se conheciam.
 No quero ser mal interpretado porque estamos juntos de uma maneira que gosto muito, mas no posso enganar voc. A verdade  que no penso em casamento. Passei por um e sei quanto pode ser sofrido.
Casamento? Mas isso nem sequer passara pela cabea de Teri!
  divorciado, no?
 Bastante  respondeu ele, procurando brincar.
 Pois tambm sou. E o que est tentando me dizer? Que quer ter um caso comigo, mas que prefere que os horrores do casamento fiquem de fora?
Essa idia no a deixava incomodada. Mas, ao que tudo indicava, Jim parecia ter considerado essa possibilidade. Bem, ao menos fora honesto ao adverti-la de que no estava disposto a se casar.
 Foi isso mesmo que eu quis falar. Isso a deixa magoada?
Teri imaginou que tipo de mgoas Jim poderia ter guardado de seu casamento.
 Por que no me conta com mais detalhes o que est tentando me dizer?
 O que estou tentando dizer  que devemos ficar como estamos, e fazer de nossos encontros o que for melhor para ns. Como agora.
O corao de Teri bateu aliviado. Era o que ela tambm queria. Tudo o que experimentara antes no chegava  metade do que Jim lhe proporcionava. No podia deixar tanto prazer esquecido por mais tempo.
 Quer dizer que gostaria de ter um relacionamento na base da atrao sexual?
 No veja nisso uma ofensa, Teri.
 Mas no vejo mesmo, e no gostaria de me sentir uma tola em nenhum sentido, muito menos quanto a esperar casamento quando nosso prazer  apenas carnal.
Jim tinha sido o primeiro homem a ultrapassar as barreiras que ela levantara contra todos os que se haviam aproximado nos ltimos tempos, pensando em casamento. E conseguira isso de uma maneira muito rpida porque, como Teri, no pensava em se casar de novo.
Observou os olhos azuis de Jim e viu determinao neles.
 No quero o tipo de relao que nos deixe amarrados o tempo todo s porque um faz chantagem com o outro. No tenho mais tempo nem sade para isso.
 Quer ento apenas deixar que as coisas aconteam?  comentou Teri.
 Viajo com muita frequncia. Meu trabalho me obriga a isso. Posso passar semanas fora. Desse modo, no espere que eu aparea com muita regularidade. No vai ser possvel.
Pareceu claro, para Teri, que a relao teria de acontecer  maneira dele ou no haveria relao. No sabia como reagir a essa idia, pois era algo que no levava seus sentimentos em conta.
Jim estava se colocando como prioridade naquele relacionamento que apenas comeava.
Admirou o corpo musculoso, viril, e a possibilidade de envolver-se ainda mais com ele deixou-a em estado de excitao. Uma relao sem amor? Mas no era isso que procurava havia muito tempo? Um relacionamento que no envolvesse nenhum tipo de sentimento mais profundo?
S tivera desiluses com o amor. Seu casamento era a prova viva disso. Agora, porm, era hora de experimentar algo melhor. No, melhor no. Mais do que isso. Excelente. Fantstico!
Vinha trabalhando duro para se estabelecer profissionalmente. O restaurante era um tipo de negcio que exigia dedicao quase exclusiva. Visitava a famlia apenas de tempos em tempos. E agora parecia ganhar a sorte grande, um prmio pelos esforos que vinha realizando.
 Tudo bem  concordou Teri.  Sem compromissos, desde que isso seja bom para ns dois.
 Maravilhoso, querida.  uma sorte encontrar uma mulher como voc.
Sorriram um para o outro.
 Isso merece uma comemorao. Com o champanhe que tenho aqui em cima  sugeriu Teri.
Beijaram-se enquanto Jim abria a garrafa. Brindaram.
Teri no se sentia arrependida pelo arranjo que acabara de fazer com Jim Kinsgton. Afinal, seria uma relao com um nico objetivo: o prazer. Sem perigo para ambos. A menos, claro, que alguma mudana acontecesse.

CAPTULO II

Dez meses depois...

Gravidez  vista. Teri confirmou que estava grvida durante a consulta com o mdico. No tinha dvida de que o filho era de Jim.
Ao sair da clnica, decidiu voltar a p para o restaurante. Precisava acalmar ao menos um pouco as emoes. Vivenciava, como num turbilho, todos os sentimentos possveis, do orgulho e do temor de ser me at a imensa responsabilidade de estar gerando um novo ser, ao qual deveria nutrir por muitos e muitos anos.
Acima de tudo, porm, havia o fato de ter confirmado suas suspeitas exatamente naquele dia, seu aniversrio. Isso fazia com que a notcia ganhasse um sabor especial. E, se a deixava mil vezes mais feliz, tambm a tornava mil vezes mais confusa.
Lembrou-se de que, quando se casara com Wayne, alimentara a fantasia de ter dois filhos. At mesmo determinara a data, imaginando que isso fosse acontecer quando chegasse aos trinta anos. Jamais, nem nos sonhos mais improvveis, poderia supor que fosse engravidar justamente ao lado de um homem que entrava em pnico perante a simples idia de casamento.
Estranho... Tinha a sensao de estar num filme.
Era como se tudo aquilo, de alguma maneira, no fosse verdadeiro. Sentia-se, no fundo, como uma personagem secundria na prpria vida, seguindo um destino que no escolhera.
Mas no importava. Na verdade, a gravidez, apesar de recente, j ganhara o status do acontecimento mais surpreendente em seus trinta anos.
Estava decidida quanto ao que fazer. Queria ser me, fossem quais fossem os riscos e os problemas.
Para ser honesta consigo mesma, tinha de admitir que no se sentia muito segura quanto  reao de Jim. Talvez ele nem mesmo aprovasse sua deciso. Talvez no a apoiasse.
Bem, se fosse assim, pacincia. Era um risco que qualquer amante poderia correr. Tinha certeza de que, por mais doloroso que fosse, acabaria se acostumando a viver sem ele. Afinal, relacionamentos iam e vinham na vida de todas as pessoas.
Um filho, porm, era algo muito diferente. Exigia abertura, disponibilidade, entrega total sempre. Era um lao profundo, que despertava os mais intensos sentimentos de que uma pessoa seria capaz. Algum a quem amar sem limites ou dvidas. Um amor responsvel, fecundo... eterno.
A caminhada at o restaurante estava chegando ao final. Teri atravessou a rua quando viu aberto o sinal para pedestres, respirou fundo e tocou de leve o ventre. Era como se estivesse se comunicando de um modo muito especial com a criana que comeava a se desenvolver em seu interior.
Pela primeira vez deu-se conta de que podia conversar ntima e silenciosamente com outro ser. E a idia a comovia. Lgrimas emocionadas vieram-lhe aos olhos.
Gostaria de poder adivinhar como Jim reagiria  notcia. Mas no conseguia imaginar a expresso dele ao saber da gravidez.
Na verdade, teria de esperar vrios dias para lhe contar. Ele se achava em viagem de negcios, e voltaria apenas no incio da semana seguinte. S ento estariam juntos de novo.
Tudo o que Teri desejava era poder compartilhar com o amante a alegria da novidade, da gravidez. Infelizmente, porm, no tinha como entrar em contato com ele.
Jim no sabia nem mesmo que naquele dia ela estava completando trinta anos. Os dez meses de romance haviam transcorrido como um rio caudaloso, cheio de paixo e emoes. Nenhum dos dois se preocupou em falar muito sobre o passado, nem com formalidades envolvendo comemoraes ou rotinas.
Embora a relao conjugal com o ex-marido no fosse um exemplo agradvel a ser lembrado, tinha ao menos feito com que Teri aprendesse algo muito importante. Ela percebera que o nico meio de garantir que os homens assumissem compromissos era por intermdio de pequenos detalhes do cotidiano, os quais, juntos, formavam uma tessitura chamada convivncia.
Impossvel conseguir essa noo de compromisso por meio de presses diretas. Dessa maneira, achava que o melhor a fazer era envolver Jim lentamente na rotina da gravidez, para ver como ele reagiria.
Teri preferia que a torrente de emoes que estavam vivendo continuasse a ser alimentada com cuidado, sem imposies abruptas. Respeitava os limites fixados por Jim. Mas agora percebia com clareza as diferenas entre manter um relacionamento descompromissado, como o deles, e viver uma situao distinta, da qual faziam parte uma gravidez e a responsabilidade de assumir um filho, com todas as satisfaes e dificuldades que o fato implicava.
A perspectiva era de uma mudana completa. At mesmo os laos que os uniam seriam afetados por compromissos e rotinas regulares, como cuidar da criana.
Pensativa, ela entrou no restaurante com passos lentos e cabea erguida. Sentia orgulho por conduzir to bem seu restaurante. Um negcio de propores modestas, claro, mas sua fonte de sobrevivncia e prazer.
A comida do Corao Feliz era apreciada pelos fregueses, e o melhor indicador disso era a frequncia assdua dos clientes. Havia ainda o servio de entrega rpida, que gerava uma receita extra. Por isso, no precisaria da ajuda financeira de Jim, caso ele decidisse se afastar ao receber a notcia de que iria ser pai. Teria condies de manter-se com dignidade, morando no apartamento do andar de cima do restaurante. Poderia, desse modo, estar com o beb e acompanhar os negcios.
Lembrou-se de que o nome do seu restaurante tinha sido inspirado pela av materna, a quem visitava com assiduidade, mesmo depois de adulta. Ambas chamavam aqueles encontros de "reunio feliz".
Teri sorriu ao pensar na av. Olhou para o relgio de parede, que marcava quatro e meia da tarde. Dirigiu-se  cozinha e, ao entrar l, deparou com Dylan, o chef, ocupado com a limpeza da grelha onde preparavam churrascos. Ao lado dele estava outro funcionrio, Charles, o garom sempre bem-humorado, que tinha um ar de cantor de rock mas usava os cabelos curtos. Ao v-la, o rapaz lhe lanou um sorriso, indicando que tinha uma boa novidade para contar.
 Jim telefonou para voc!
O corao de Teri quase saltou do peito. Jim ligando durante a semana, na parte da tarde? Isso nunca tinha acontecido!
 Disse o que queria, Charles?  perguntou ela, usando um tom de voz que fingia preocupao e escondia a euforia.
 Sim. Falou que estava voando da Nova Zelndia para c, e que chegaria por volta das oito e meia. Pediu que ns guardssemos um daqueles frangos com mousse de espinafre e cogumelos.
Ento era isso. Ele s pensava na comida!
Droga. Por um instante, Teri imaginara que o telefonema tivesse sido motivado pela considerao que Jim devia ter por ela, mas se enganara.
Na verdade, no poderia nem mesmo ter levado em conta essa possibilidade. Honestamente, no devia esperar nada muito diferente disso. Consolou-se com uma brincadeira com o chefe da cozinha, que ouvira a conversa.
 Voc inventou um prato que est fazendo sucesso, Dylan.
 , parece que sim  ele respondeu, sorrindo.
Dylan era uma pessoa feliz. Tinha vinte e dois anos, mas se comportava como um profissional experiente, aps quatro anos de aprendizado num grande hotel.
 Ah, ia me esquecendo!  disse Charles.  Chegou correspondncia para voc. Deixei na cozinha.
Teri imaginou que se tratasse de algum carto de felicitaes, enviado por algum da famlia que se lembrara de seu aniversrio. E, ao pensar nos parentes, perguntou-se como iriam receber a notcia sobre o beb.
Bem, no precisava se preocupar com isso agora. Havia muito tempo para planejar uma maneira de lhes contar.
Precisava, isso sim, encontrar um modo de dar a notcia a Jim. No tinha mais do que trs horas e meia para pensar num meio de falar sobre a gravidez.
E depois? O que aconteceria?
Sentiu um frio no estmago. Lembrou-se da primeira separao. Wayne a deixara depois de trs anos de casamento. Desde aquela poca Teri j tinha o hbito de ser independente, e conseguia atingir objetivos que definia de antemo. Gostava dessa autonomia e no iria perd-la por nada nesse mundo. Em especial agora, porque disso dependia a vida do beb.
Caso Jim no gostasse da novidade, ou quisesse ir embora, tudo bem. Dessa vez, a separao no a deixaria de mos vazias. Teria algum a quem amar. Algum com quem se ocupar para sempre. Teria um filho para preencher seu corao e seus dias.

CAPTULO III

Jim Kingston sorriu sozinho ao sair do aeroporto e caminhar em direo ao ponto de txi. Tinha conseguido bons resultados nas negociaes na Nova Zelndia, o vo fora tranquilo e pontual, seu jantar preferido estava reservado no restaurante Corao Feliz.
Era um nome estranho para um restaurante, pensou ele. Mas tinha uma cozinha excelente e pratos saborosssimos, que se igualavam, em qualidade, a qualquer um dos lugares mais luxuosos que conhecia, ao redor do mundo. Com a vantagem de manter um preo muitssimo mais acessvel.
Para fechar a noite com chave de ouro, haveria um encontro prazeroso e descomplicado com Teri.
 Vamos para a avenida dos Vinhedos, por favor  Jim orientou o motorista.
O txi arrancou, deixando o aeroporto em direo ao endereo da casa de Jim, a qual ficava a poucas quadras do Corao Feliz.
Engraado... Sempre que tinha de recordar o nome do restaurante, fazia um esforo de memria. Isso no lhe agradava. Denominaes de estabelecimentos comerciais deviam ser simples e diretas, de modo que pudessem ser lembradas num piscar de olhos.
Alm disso, achava que o nome do restaurante poderia se parecer com a dona. Teri era direta, simples, despretensiosa. Nunca sentia necessidade de "dourar a plula", florear o essencial.
Era uma mulher atraente, nunca pedia satisfaes sobre o que quer que fosse, no tinha expectativas desmesuradas, sabia conduzir a relao sem pedir ateno a todo momento. Alm disso, no causava problemas nem o lembrava a todo momento do compromisso que mantinham.
Para coroar esse jeito, Teri era uma mulher com um corpo to bem-proporcionado que ele no conseguia encontrar defeito em parte alguma. A harmonia entre seios e cintura, ombro e cabea, ndegas e coxas, pernas e ps era perfeita. No tinha ossos salientes ou destoantes, que pudessem comprometer suas curvas femininas.
Na verdade, Jim sentia que aquela era a mulher de seus sonhos.
Quando a vira pela primeira vez, havia cerca de um ano, tinha acabado de comprar o sobrado na rua dos Vinhedos. Estava conhecendo a vizinhana, buscando alternativas de restaurantes com boa cozinha. E o cantinho de Teri fora uma descoberta muitssimo agradvel.
Conhec-la fora ainda mais excitante. No primeiro contato, desconfiara que Teri Adams fosse do tipo de mulher com pretenso a princesa, e que visse num homem nada mais do que um escravo domstico. Serena, sua ex-esposa, fazia esse gnero. Queria ateno a toda hora para desejos que deviam ser realizados em momentos disparatados, tudo fruto de um corao volvel, que no reconhecia nenhum limite.
Os trs anos de divrcio tinham se revelado bons. Naquele perodo, ele conseguira recolocar toda a sua vida em ordem, arrumara uma nova casa e... conhecera Teri.
Claro que a liberdade era uma conquista tambm para sua amante. A experincia de um casamento, dizia Teri, fora tima para lhe mostrar que aquela era uma "roupa muito apertada para seu manequim".
Nada como uma frustrao conjugal para despertar talentos, pensou Jim.
Teri era capaz de conduzir com habilidade aquele pequeno restaurante e tinha capacidades ainda maiores, que poderia explorar. Respeitava aquela mulher e podia olhar para ela de igual para igual.
O txi chegou ao endereo pedido. De dentro do carro, Jim olhou para sua casa. Depois do divrcio, e feitas as contas da partilha de bens com Serena, restara o suficiente para permitir-lhe adquirir aquele imvel.
Sorriu, satisfeito, e pagou ao motorista. Saltou do carro e destrancou a porta do sobrado.
Eram oito e dez quando entrou em seu quarto. Sentiu que estava em territrio familiar, e a alegria invadiu-lhe o peito. Era como se tudo estivesse no lugar certo.
Precisava apenas se banhar, trocar de roupa e sair para o jantar com Teri.
Percebeu que a arrumadeira aparecera e deixara tudo limpo. No precisava de uma esposa para manter a casa em ordem. Apesar do pouco tempo, estava to acostumado com a nova casa que parecia morar ali h muitos anos. No tinha do que reclamar. Acima de tudo, no era obrigado a ouvir reclamaes da ex-esposa quando se colocava em frente da tela da televiso, para assistir aos jogos preferidos.
Serena vivia reclamando, dizendo que ele passava muito mais tempo no trabalho e vendo programas do que dando-lhe ateno. Repetia que por isso no se dedicava a ela nem lhe fazia companhia.
A princpio, Jim no levara aquelas queixas a srio. Mas depois de um certo tempo percebeu que tinham razo de ser. As reclamaes da ex-esposa eram mesmo verdadeiras.
No fundo, ele evitava a companhia de Serena. Buscava refgio, mesmo sem perceber, na televiso ou no trabalho. Por esse motivo ficava at tarde no escritrio. Estendia seu horrio at onde podia.
s vsperas do divrcio, j no havia o que partilhar com Serena. Por isso, o casamento chegara ao final.
Fora a melhor sada. Compartilhar a cama com uma esposa no era soluo para ningum, pensou.
A vida de casado s lhe trouxera problemas. E algumas poucas solues. Alm disso, a convivncia conjugal sempre tinha o efeito de corroer a confiana que um depositava no outro.
Havia mais, porm. Sempre sentira que Serena fazia da vida sexual uma convenincia feminina. Para ela, o homem tinha que se adequar a isso, gostando ou no.
Por todos esses motivos, queria ficar bem longe do casamento. O mximo possvel. Por toda a vida.
Gostava do relacionamento que mantinha com Teri. O papel de amante lhe proporcionava uma intimidade sempre renovada e cheia de satisfao.
Sorrindo, apressou o banho. Desligou o chuveiro, barbeou-se e aprontou-se para sair.
Tinha um encontro marcado no Corao Feliz.
E, naquela noite, seus sentimentos combinavam com o nome do restaurante. Estava mesmo muito feliz.

CAPTULO IV

Eram oito horas da noite quando Teri desceu para o restaurante, a fim de encontrar-se com Jim. Teve um pressentimento ruim, de que o amante poderia no aparecer. Afinal, nada prometera a ela. Dera apenas um telefonema, e por isso era preciso ficar sem expectativa quanto  sua chegada.
Por um instante escutou o corao e se sentiu na posio ridcula de algum contando os minutos de atraso do homem amado...
Pediu aos cus para que Dylan no fizesse comentrios sobre seu aniversrio, pois do contrrio seria capaz de perder de vez a serenidade. Na verdade, isso estava prestes a ocorrer. Sentia a cabea pesada, a mente confusa. No tinha certeza sobre como contar a novidade a Jim.
Se continuasse assim, tensa e preocupada, preferia que Jim no aparecesse.
Quando chegou ao salo de refeies do restaurante, sentiu-se melhor. Ficava de bom humor sempre que via quase todas as mesas cheias.
A maioria dos clientes morava nas redondezas. Muitos no gostavam de cozinhar. Outros desejavam variar um pouco o cardpio caseiro. E havia ainda aqueles que iam at l em busca de conversa, de companhia. Esses costumavam permanecer no estabelecimento at o fechamento, s nove horas da noite.
To logo o ltimo deles sasse, Teri pretendia ir para o apartamento e se deitar. Por um instante imaginou-se dali a dez meses, ao final da gestao, subindo para casa depois de encerrar as atividades do dia e prestes a amamentar o beb...
Suspirou ao pensar no futuro e, pensativa, posicionou-se atrs do caixa. Poucos minutos depois, o rudo da porta, que rangeu ao ser aberta, chamou-lhe a ateno. Jim!
Ele caminhou em linha reta na direo de Teri. Passou pelo bufe farto e pelos clientes como se nenhum deles existisse. Tampouco notou as margaridas e a decorao das mesas. Olhava apenas para a mulher que, do fundo do salo, o fitava.
Trajava jeans azul-clarinho e camisa esporte branca, com listras azuis-claras, o que indicava que estava de folga, sem nenhum compromisso profissional. Teri percebeu que o brilho dos olhos cor de mar achava-se totalmente voltado para ela.
 Ol, Teri!  Jim cumprimentou, feliz, colocando os braos no balco diante da caixa registradora e levando o rosto atraente para bem perto do dela.
Teri procurou manter-se tranquila, mas por dentro sentia um pequeno terremoto, que agitava seu corao e suas pernas, deixando-as bambas. Jim sorria, mostrando os dentes brancos e bem tratados que combinavam com sua figura alinhada. O conjunto transmitia uma imagem forte, um homem de personalidade, confiante e vitorioso.
 Fez boa viagem?  perguntou ela, devolvendo-lhe o sorriso.
 tima! Consegui mais do que precisava, e agora estou pronto para comemorar com voc  respondeu Jim.
A roupa de Teri, mais apropriada para o trabalho, contrastava com a de Jim. Ela vestia uma blusa com decote em V e um pequeno coraozinho desenhado do lado esquerdo, em referncia ao nome do restaurante. A pea, mais a cala branca de linho, compunha seu uniforme de trabalho, o qual ela mesma desenhara, tempos atrs.
Sentiu o corao bater acelerado quando da aproximao de Jim. Era sempre assim. Conhecia-o havia quase um ano e sempre se emocionava ao v-lo. Mas, dessa vez, a emoo vinha revestida de um sentimento muito especial...
 Parece que o sucesso deixou voc de bom humor  comentou, tentando acalmar-se.
 Que nada! O que me deixa de bom humor  vir aqui!
Talvez Jim no conseguisse manter o mesmo bom humor quando soubesse da notcia da gravidez, pensou Teri.
 Ei, Jim!  exclamou Dylan ao aparecer na passagem entre a cozinha e o bar.  Guardei quatro generosas pores de frango  Changmai para voc. Posso aquecer no microondas quando quiser.
 Boa idia! Estou esperando  ele respondeu, e em seguida virou-se para Teri.  Que chefe de cozinha fora de srie voc arranjou, querida.
 E verdade. Voc precisava ver como ele ficou satisfeito depois que atendeu ao seu telefonema e soube que voltaria esta noite.
Jim sorriu de satisfao. Evitara comer no avio para degustar, no Corao Feliz, seu prato favorito, inventado por Dylan.
 E quanto a voc? J jantou? Comeu alguma coisa?  perguntou ele.
 Apenas uma beliscada aqui e ali  respondeu Teri, sabendo que, na verdade, sentia-se tensa demais para comer o que quer que fosse.
 Vai poder sentar-se  mesa comigo?
Ela fez que sim com um gesto de cabea.
 Claro. Quando terminar o trabalho, por aqui.
Jim olhou ao redor, avaliando os clientes. O restaurante ainda estava cheio.
 Isso deve levar algum tempo...  disse devagar.  Sabe de uma coisa? Estive pensando muito em voc, hoje.
 Ah, j sei por qu! Estava torcendo para que eu no demorasse a lhe trazer a comida, no ?  brincou Teri.
Jim arregalou os olhos e sorriu para a amante.
 Estou com a alma e o estmago muito carentes, sabe?  falou baixinho.
 Sei como  isso...
 timo. Ento somos dois.  Deu-lhe uma piscadela.  Mas posso ajudar a despertar seu apetite...
A tentao de manter em segredo a novidade cresceu naquele instante. Jim era um amante dedicado, mas que prezava a liberdade acima de tudo. Como partilhar a experincia de uma gravidez com um homem como ele? Talvez fosse melhor encarar o beb como um presente de aniversrio. Um presente que ela dava a si prpria.
Esse pensamento fez com que se distrasse e olhasse para o vazio.
 Teri? Voc parece estar a quilmetros daqui. Para onde sua mente viajou? Pode me contar?
 Eu... bem... Estava pensando em como voc est bonito hoje.
 Voc tambm est, querida. Muito.
Ela forou um sorriso, procurando esconder o nervosismo. Gostaria de saber, naquele instante, como Jim reagiria  novidade que tinha para lhe contar. Ser pai seria algo especial? Ou, ao contrrio, o deixaria furioso?
 Aqui est o frango!  exclamou Dylan, trazendo a bandeja com o prato preferido de Jim.
 Hum... O cheiro est delicioso. Quer saber de uma coisa? Jamais como algo to bom em toda a minha vida  respondeu ele, apurando o olfato ao aproximar-se da bandeja.  Nem imagino o segredo culinrio que haver aqui!
 No conte, mas  combinao de mel com leo de gergelim e molho de soja!  Dylan revelou, bem baixinho.
Teri registrou o pedido, pesou o prato e passou o tquete de pagamento, para Jim acertar na sada. Em seguida, viu-o dirigir-se a uma mesa lateral, de onde tinha uma viso perfeita de todo o restaurante.
Levantou-se para recolher os pratos deixados nas mesas vazias. Percebeu que estava sendo observada por Jim, e teve a ntida sensao de que aquele olhar tinha a mesma doura e o mesmo calor do par de mos fortes acariciando seu corpo.
Sentiu-se excitada a ponto de no conseguir ficar muito tempo no local. Rumou para a cozinha com uma dzia de pratos nos braos e entregou-os a Mike, seu ajudante de cozinha. O rapaz prestava servio no restaurante todos os dias, e  tarde cursava a faculdade de odontologia.
 Deixe que acabo de recolher tudo. V se encontrar com Jim, e aproveitar para descansar  props o jovem.
Teri se deteve, intrigada. Ento um garoto de dezenove anos resolvia lhe dizer o que fazer? E, o mundo estava mesmo mudado...
 Ele vai se aguentar sem mim  respondeu em voz baixa, quase como se estivesse conversando consigo mesma.
Mike recarregou a bandeja para a mquina de lavagem de louas.
 Oh, no vai, no. Todo mundo pode perceber que ele est mais do que apaixonado por voc. Ponha um fim no sofrimento dele.
 Oua, Mike... No se meta onde no  chamado.  respondeu Teri.  Quando precisar de conselho, aviso antes, est bem?
 Mas hoje  seu aniversrio!
 Como sabe disso?
 Bem, Dylan viu quando os cartes chegaram e acabou concluindo, como era de se esperar, que voc fazia anos hoje. O carteiro disse que tinha entregado outros cartes.
Teri desejou estar no seu apartamento, trancada, sem ver ningum. Que mulher desejaria ser lembrada de seu aniversrio quando, no mesmo dia, recebera o notcia de que estava grvida de um homem que simplesmente fugia do casamento?
 As pessoas deviam cuidar de sua prpria vida  respondeu, sem graa.
 Mas qual  o drama? Tire o resto da noite para ficar com Jim. V se divertir. Dylan e eu acabamos de arrumar aqui, e fechamos o restaurante depois.
 Mas no estou preparada!  respondeu ela em tom agressivo.
 Para qu?
 Ora, para nada! No se preocupe.
Sem jeito, ajeitou algumas panelas e afastou-se, pensativa.
Como poderia se divertir com um homem que no sabia que seria pai? Precisava contar a ele que estava grvida antes de qualquer manifestao de carinho. Mas... estaria pronta para sofrer a rejeio, a decepo, caso viessem? Ou s se sentia preparada para receber o apoio de Jim? E se esse apoio no viesse?
Gostava muito dele, apreciava aqueles trridos encontros casuais. Mas, como no era mais adolescente, no se sentia capaz de envolver-se numa paixo desenfreada. Tinha uma viso bastante madura de seu relacionamento com aquele homem.
Na verdade, no o conhecia to bem assim. Sabia apenas que era simptico, que tratava as pessoas com gentileza, que lhe dava carinho e ateno, alm de ser um amante impecvel.
 Teri, h um cliente pedindo para fechar a conta  Dylan avisou.
Ela suspirou. Tinha que colocar um sorriso fingido nos lbios e voltar ao trabalho do caixa. Atendeu um grupo de quatro pessoas e uma famlia que aparentava estar satisfeita. Desejou-lhes boa-noite.
Olhou para Jim, que, junto ao bufe, fazia o segundo prato. Na volta  mesa, parou perto de Teri e Dylan.
 Pode me fazer companhia agora, querida?  perguntou docemente.
  claro que ela pode. A grelha est encerrada esta noite, e posso fechar o caixa enquanto Mike cuida do resto  respondeu Dylan, antes que Teri se manifestasse. 
Aquilo parecia uma trama muito bem armada. E logo em seu trigsimo aniversrio. Justamente em um momento difcil de sua vida.
No queria fazer nada que resultasse em uma emoo muito forte. Tinha receio de que, caso isso acontecesse, pudesse ter uma crise de choro. E, a, seria obrigada no a contar, mas a desabafar que estava grvida.
 Tenho que ir at o apartamento  disse, procurando uma desculpa para escapar dali.
 Mas voc est perfeita! No precisa de retoques  elogiou Jim, com os olhos estampando um fogo que Teri no tinha como encarar naquele instante.
  verdade. No preciso de retoques.
 E isso que amo em voc, querida. Est sempre ao natural.  autntica.
Como? Ouvira direito? Jim seria capaz de amar?
Oh, no. Certamente no. Fora apenas fora de expresso. Afinal, aquela era uma palavra muito simptica, e fcil de usar. Menos, evidentemente, no sentido que ela esperava.
Magoada, Teri dirigiu-se  escada e comeou a subir para o apartamento.
O que ele amava, de fato, era a distncia e a solido. Que tipo de amor poderia alimentar por uma mulher como ela, se no tinha nem mesmo tempo para dedicar a um simples namoro?
Por certo adorava sua companhia, mas preferia v-la nua. E numa cama. Como ele mesmo dissera, momentos atrs, "ao natural"...
Ao chegar ao quarto, Teri abriu a gaveta onde guardava a correspondncia e reviu os cartes de aniversrio que recebera. Se convidasse Jim para subir, naquela noite, no iria querer que perguntasse quantos anos estava completando. Na verdade, no se sentia bem ao lembrar que os dois nem sequer sabiam a data de aniversrio do outro.
Deparou com um dos cartes, que dizia:
 nossa querida filha!
Uma filha...
Pela primeira vez deu-se conta de que estava grvida no apenas de um beb, mas de uma menina ou um menino. Quem viria? Quem nasceria, dali a sete meses?
Pensativa, foi colocando os cartes de volta na gaveta, imaginando como seria ter uma menina. Depois, pensou em como a vida ficaria ao lado de um menino.
Sua filha. Ou seu filho. Com Jim.
Naquele instante, decidiu que contaria tudo ao amante o mais depressa possvel. No suportaria ir para a cama sem que ele soubesse da gravidez. E devia revelar tudo ainda naquela noite. Sem falta.

CAPTULO V

Ao retornar ao restaurante, Teri notou que as mesas do salo estavam quase vazias. Havia um casal e um cliente sozinho alm de Jim, que terminara o jantar.
Dylan limpava a grelha do churrasco e Charles, o garom, conversava com Jim.
 Teri est de volta  comentou o funcionrio.
 Espero que dessa vez ela resolva ficar comigo... Mesmo ouvindo essas ltimas palavras, Teri se fez de desentendida.
 Obrigada pela recepo  comentou ao olhar para o funcionrio.  Estou me sentindo como se todos estivessem no meu calcanhar. O que est havendo por aqui?
Jim deu uma risada, e seus olhos brilharam como duas pedras preciosas.
 Eles adoram voc e trabalham contentes aqui. Querem facilitar sua vida.
Teri sorriu ao pensar que Jim poderia estar certo. De fato, gostava do trabalho deles e pagava bem por isso. O resto era galanteio do amante.
 Nunca me contou nada sobre quantas pessoas trabalham para voc  comentou Teri.
Jim j lhe explicara que sua atividade tinha relao com a converso de programas de computadores, mas Teri preferiu no se interessar muito sobre o assunto.
Afinal, ele poderia suspeitar que tal curiosidade se devesse a alguma segunda inteno, como saber quanto rendia o negcio.
Na verdade, ela no se incomodava nem um pouco com esse aspecto. Mas sentia que precisava de uma conversa pessoal, que reatasse a ligao ntima entre os dois.
 Minha equipe  pequena, composta de quatro programadores e uma assistente administrativa  respondeu Jim, ainda sorrindo.
 Uma assistente? Mulher?
 Sim. Estou enganado ou essa pergunta implica um pouco de cime, querida?  Ele riu e piscou.  Eu, ento, teria motivos para morrer de cime. Voc trabalha com trs homens, e dois parecem jovens demais. Devem ter dezesseis ou dezessete anos, imagino.
Para Teri no era uma questo de sentir cime, mas entender que tipo de personalidade tinha a funcionria de Jim. Imaginava que isso tambm indicaria algo sobre ele.
 Voc prefere dar trabalho a programadores homens?  indagou, sabendo que havia muitas mulheres nesse mercado de trabalho.
 Sei que vai me achar um machista sem escrpulos, mas prefiro mesmo. Sobretudo quando a equipe deve trabalhar com muito entrosamento. Costuma acontecer de a mulher usar seu charme sensual para galgar posies na vida profissional, sabia?  respondeu ele, lanando-lhe um olhar de desafio.
 E voc j presenciou esse tipo de coisa acontecer?  indagou Teri.
 Com mulheres casadas  mais raro. Mas as solteiras... Bem, podem fazer uma devastao na produtividade e no esprito de uma equipe.
Teri ficou considerando se isso era ou no um preconceito, mas teve a clara intuio de que Jim revelava uma posio defensiva ao encarar esse tipo de situao.
 Imagino que Charles no seja do tipo de que voc fala  disse.
Jim relaxou e deu um sorriso, aliviado por no ser criticado quanto  sua poltica de contratao de pessoal.
 No. Charles parece sensacional como funcionrio, tem muita responsabilidade e  algum em quem se pode confiar.
Teri ficou pensativa quanto a Jim saber confiar nas pessoas. Como seria sua reao quando soubesse que estava grvida? Confiaria nela quando dissesse que a gravidez fora acidental? Ou ficaria assustado a ponto de acus-la de ms intenes?
O barulho de cadeiras alertou-a de que os clientes restantes estavam indo embora. Poucos segundos depois eles j aguardavam a vez de ser atendidos no caixa, controlado por Dylan.
 Quer uma sobremesa, Jim?  perguntou Teri.
 Nem pensar. J estou satisfeito com o servio especial que voc tem me proporcionado.
 Sabe que para ganhar um presente de qualquer mulher  preciso dar-lhe dedicao e carinho?
 Sei. Por isso julgo-a to especial. E uma pessoa adorvel, querida.
  bom ser elogiada. Obrigada.
Teri sentiu-se engolfada pela sensualidade trocada no olhar que encerrou aquela conversa.
Naquele momento, Dylan saiu de trs do caixa e animou o ambiente, rindo e conversando alto com os ltimos fregueses. Acompanhou-os at a porta, despedindo-se.
 Dylan, voc, Charles e Mike j podem ir. Amanh arrumo o que for necessrio.
 Est bem. Vou me trocar num minuto.
Teri sentiu que mais um minuto seria muito tempo. Iria acabar perdida na sensao de se afogar em seu segredo, to ansiosa estava em compartilh-lo com Jim.
No fundo, queria fazer dessa confisso uma base para o futuro. Queria saber se ele iria assumir a paternidade da criana e continuar a frequentar sua casa.
Sentia o corao palpitar de ansiedade quando pensava que Jim poderia abandon-la. Talvez quisesse ser apenas um "pai solteiro", sem nenhuma ligao com a me de seu filho.
Que faria se isso acontecesse? Sua cabea parecia rodopiar em busca do futuro.
 Est mesmo se sentindo bem?  perguntou Jim.
  claro  respondeu ela, pedindo, em silncio, que os rapazes fossem embora depressa.
 Parece um pouco plida, querida.
 Deve ser impresso sua, no h nada de errado.
Ela tentou disfarar a tenso, mas ao esboar um sorriso tudo o que conseguiu foi fazer uma expresso sem graa. Como explicar a grande confuso em que se encontrava?
 Posso ajudar de alguma maneira?
Aquela era uma reao tpica de Jim, e Teri chegou a imaginar que talvez pudesse aproveitar o momento para...
Nesse instante, foi interrompida por Dylan, Charles e Mike.
 "Parabns a voc, nesta data querida..."
Dylan surgiu da cozinha com um grande bolo e uma nica vela.
Por um instante, toda a tenso de Teri se dissipou, ante a surpresa de que seu aniversrio seria anunciado a Jim. Charles trazia duas taas e um champanhe no gelo.
 Parabns e felicidades, Teri!  exclamou, colocando as taas na mesa.
Jim juntou-se a eles.
 Parabns, querida!
Ela quase verteu lgrimas, tamanha a emoo. Colocou os cotovelos na mesa e cobriu o rosto com as mos, para disfarar. Queria que pensassem que estava com vergonha, mas na verdade lutava com suas emoes.
No desejava sentir-se ainda mais confusa. Um torvelinho de preocupaes assolava seu peito, perturbando-a.
 Vamos l, Jim, apague a vela!  incentivou Mike.
 Faa um pedido, Teri! Que pedido ela poderia fazer? Bem, talvez...
Pensou no desejo com toda a intensidade de que era capaz seu corao. Pediu que Jim aceitasse a criana com todo o amor!
Respirou fundo e levantou-se, aliviada ao pensar que deveria apagar uma e no trinta velas. Mas era como se estivesse prestes a soprar um milho de velas, que correspondiam ao tamanho da emoo de comunicar a Jim que estava grvida.
 Muito obrigada...  conseguiu falar, contendo o choro.
  bolo de laranja com cobertura de limo. Seu preferido, Teri.
 Ora, vocs no precisavam ter se preocupado. Foi muito amvel da parte dos trs. Obrigada, Dylan, Charles e Mike.
 Muita felicidade, Teri. Neste e em todos os seus aniversrios  desejou Dylan, em nome dos outros funcionrios.
 Bem, ns j vamos indo  anunciou Charles.
 Podem deixar comigo, rapazes, vou cuidar de tudo  disse Jim, acompanhando-os at a porta.
Em qualquer outro aniversrio, Teri teria se sentido invadida pelo contentamento. Aquela doce surpresa lhe traria uma alegria imensa. Mas naquele momento, naquelas circunstncias, viu-se tomada pela comoo.
Seus olhos ficaram marejados, e ela se ps a piscar com rapidez, para afastar as lgrimas. Tentou se recompor respirando fundo vrias vezes. Naquele instante Jim retornou  mesa.
 Eu no sabia que estavam planejando isso  comentou Teri, controlando a emoo.  Nem mesmo disse a eles que era meu aniversrio!
 Sei disso  falou Jim, abaixando-se para pegar algo na cadeira e oferecendo-lhe um pequeno pacote.  Bem, aqui est o seu presente. Feliz aniversrio, querida!
A voz masculina transmitia um carinho todo especial. Para Teri, funcionou como um afago profundo no corao, afastando os temores de que aquela noite seria desagradvel. Pegou o presente.
 Como soube que era meu aniversrio?
 Dylan me disse quando telefonei, antes de vir.
 Ele no tinha por que fazer isso  comentou Teri, um pouco envergonhada.
Jim aproximou-se.
 Estou aqui porque queria muito partilhar este momento com voc, querida. Na verdade, meu presente  simples. S se torna valioso porque no era esperado. Voc nunca espera nada de mim, e  isso o que mais gosto.
 Espere...
 Nada de esperar. Abra o pacote, vamos!
 Mas nem sei o dia do seu aniversrio!
 Primeiro de dezembro, querida.
O beb nasceria em outubro, pensou ela. Quase disse isso em voz alta, mas conseguiu se conter. Retraiu-se e aguardou outra oportunidade.
 Abra o presente. No vai dar choque.
Ela observou o papel luxuoso que embrulhava cuidadosamente o pacotinho alongado. Parecia uma caixa retangular. Ao retir-lo, deparou com uma fina caixa de couro, que parecia um estojo de culos.
De fato, era um culos de sol, muito sofisticado, de uma grife famosa. Ao ver o presente, ela ficou surpresa. Nunca tivera algo parecido.
 Coloque-o, para eu ver como fica em seu rosto.
As mos de Teri tremeram um pouco ao pegar os culos e coloc-los sobre o nariz.
 E ento?
 Ficam timos em voc, sabia? Melhor do que eu esperava!
Ela no resistiu a tentao de ir at o espelho do corredor que dava acesso ao apartamento. Mirou-se com ateno e ficou surpresa com o que viu. Os culos eram maravilhosos, elegantes, finos. Deixavam seu rosto com um aspecto misterioso.
 Adorei!  exclamou, emocionada.  Mas devem ter custado uma pequena fortuna...
 Aproveite cada centavo dela, ento. Agora, s falta um carro esporte vermelho sem capota. A voc poder sair pelas estradas, com o vento no rosto e os cabelos esvoaando. Que tal?
Ela sorriu ao ouvir aquilo. Jim tinha cada idia...
Voltou para a mesa e recolocou o culos no estojo. Tornou a considerar que o momento de contar tudo tinha chegado.
 Vamos agora ao champanhe!  disse Jim.
 No, espere um momento!  pediu ela.  H uma coisa que preciso contar. E agora.
 Tudo bem, querida  ele respondeu, bem-humo-rado.  Sou todo ouvidos.
Como comear?
"Ora, pelo incio!", respondeu uma voz em seu interior.
 Lembra-se de quando tive uma indisposio, um ms atrs?  comeou Teri, preocupada em explicar que no havia planejado nada.
 Claro que me lembro. Afinal, aquela indisposio no a deixou fazer amor comigo.
 Exatamente. E naquela noite, depois que voc saiu, piorei. Ento procurei um mdico. E fiquei sabendo que... bem, que a plula no tinha funcionado.
 Como?
Jim perdeu o p da conversa por um momento, intrigado com o papel de uma plula anticoncepcional no mal-estar de Teri.
Ela tomou coragem para continuar a histria, mas se deu conta de que no conseguia encar-lo. Pegou a vela fincada no bolo e colocou-a de p na mesa. Era preciso contar tudo. Naquele momento.
 Jim? Estou grvida. E pretendo ter essa criana, quer voc goste, quer no.  Fez silncio por alguns poucos, mas longos minutos.  No sabia como lhe dizer. Estou nervosa desde que recebi a notcia. Quero lhe dizer que no espero nada da sua parte. No pretendo pedir nada. Tudo o que desejo  ter esse filho. Encare isso como uma deciso de me. De todo modo, eu no podia deixar de avis-lo. Afinal,  seu filho tambm.
Suas palavras pareciam ecoar no deserto de silncio que se estabeleceu entre os dois.
Jim a fitava, com ar perplexo. Seus pensamentos no conseguiam se fixar em lugar algum. Sentia-se incapaz de dar alguma resposta plausvel, de definir ou entender suas emoes.
Teri estremeceu ao perceber que ele parecia em estado de choque, com o olhar perdido, sem reao.
O homem que estava  sua frente no lembrava nem de longe a pessoa que ela conhecia e com quem se encontrava havia quase um ano. Mais se assemelhava a um estranho.
Teri sentiu vontade de subir para o apartamento e deix-lo sozinho. Ele que acordasse para a realidade, em algum momento, e fosse embora. Para sempre.

CAPTULO VI

Jim sentiu ter perdido o cho. Teri... grvida? Esperando um filho seu?
Quem era esse pequeno ser, esse intruso que decidira se meter no relacionamento de ambos, alterando todas as expectativas, todos os planos, e criando essa tenso fora do comum?
Sua perplexidade era tanta que ele no conseguia nem mesmo responder a essas perguntas.
Sentia que precisava tomar uma deciso.
Mas qual? O que devia fazer?
No fazia a menor idia. Sentia-se como algum que fora nocauteado com uma luva de pelica. A dor ia aparecendo aos poucos, na forma de ondas de calor que tomavam conta de seu estmago, subiam pelo peito e invadiam a garganta, impedindo-o de respirar. De raciocinar.
Claro que conhecia casais que esperavam filhos. No entanto, a maioria costumava se casar primeiro, arrumar a casa em seguida e s ento aguardar a gravidez.
Esse era o ponto. No queria casar-se novamente. Por nada no mundo!
Gostava muito de Teri. Tinha um relacionamento saudvel com ela. Os dois estavam indo muito bem. Por que mudar aquilo? Afinal, nada como um casamento para arruinar uma vida amorosa...
A gravidez parecia mesmo ter sido um acidente. Teri poderia ter ido procurar uma clnica onde se faziam abortos e nada lhe dizer, se quisesse.
Sentiu um reao primitiva de averso quela idia. Aborto? Jamais. Sentia-se enojado s em pensar nisso. Estava aliviado pelo fato de Teri no ter escolhido esse caminho.
Para com o beb e para com ele, ao dar-lhe a oportunidade de ser pai.
Pai! Nunca lhe passara pela cabea ter um filho com Teri!
A verdade bateu como uma pedra em sua mente e somente aos poucos foi assimilada pelo corao. Uma avalanche de sentimentos e imagens abalava sua confiana.
Como ter um beb, se depois ele ia se tornar uma criana e, mais tarde, um adolescente? Assumir um filho era assumir uma responsabilidade por toda a vida. Alm disso, a paternidade exigia planejamento e estado de esprito, algo que ele no tinha. Que precisava ser conquistado. Mas Jim sentia-se longe dessa conquista. E por um motivo bastante simples: nem comeara a pensar nisso concretamente.
Era uma situao complicada, que exigia energia emocional, alm de muitas mudanas no estilo de vida que levava. Imaginou que, para Teri, ela tambm representaria uma enorme transformao. O fato tinha consequncias srias, que ambos deveriam assumir o resto de suas vidas. Caso um dia deixassem de ser amantes, teriam de continuar a se ver como pai e me daquela criana.
Lembrou-se de que chegara a desejar um filho com Serena, antes de ela provocar toda a confuso que gerara a separao. Mas nunca imaginou que estivesse pronto para ter uma famlia tradicional. Queria apenas um filho, um garoto com quem pudesse compartilhar as coisas boas da vida...
Recordou-se de seus tempos de infncia, a gostosa convivncia com o pai em pescarias, acampamentos e viagens. Os dois disputavam partidas de basquete na garagem da casa, jogavam futebol no clube e davam longos passeios de bicicleta no parque na cidade.
E fora timo. Divertido. Fundamental.
O pensamento de Jim foi interrompido quando Teri levantou-se de uma s vez, afastando o mvel com um rudo. Ps-se de p ao lado dele.
 No precisa ficar preocupado. Vai continuar a ser um homem livre e desimpedido. No se esquea de travar a porta por dentro, quando sair.
Ele a fitou, boquiaberto, e percebeu que Teri estava plida. Seu olhar tinha um aspecto frio e desapontado, e sua cabea pendia, como se ela estivesse muito cansada.
No esboou nenhuma reao para impedi-la de retirar-se, de ir para o apartamento. Permaneceu sentado, olhando o bolo intacto, o papel de embrulho do presente, o estojo dos culos ao lado.
Teri nem sequer o pegou. No tinha a menor inteno de lev-lo para cima, lamentou-se Jim.
Lembrou que ela parecera relutante em sentar-se  mesa desde que chegara. Sentira-se dividida entre abrir ou no o presente, e suas palavras ressoaram fundo: "No espero nada de voc... No vou pedir nada a voc... O beb pode ficar sob minha responsabilidade..."
Deu-se conta que Teri no queria compartilhar a criana com ele. Oh, no! Se isso fosse verdade, tratava-se de um grande equvoco. Era o pai, no era?
Teri no tinha o direito de decidir sozinha se ele devia ou no participar da gravidez. A criana era parte de ambos.
Atnito, Jim comeou a raciocinar com velocidade. At poderia ser obrigado a entrar com uma ao legal, para garantir a paternidade. Na condio de me solteira, Teri poderia deix-lo de lado ou mesmo limitar suas visitas, se quisesse.
Ter que ir a uma vara de famlia para solucionar a pendncia era a pior perspectiva, pensou. Um acordo entre as partes era muito mais conveniente. E isso comeou a se tornar claro naquele instante.
Precisava mostrar a Teri que tinha possibilidade de se tornar pai, apoiador constante e provedor de tudo o que o beb necessitasse. Mas como convenc-la disso?
Precisava comear por acertar a data do casamento. Porque, obviamente, iriam se casar. Assim, nada daria errado no registro da criana. Mas... no daria errado para eles?

CAPTULO VII

Desolada, Teri sentou-se em sua cama, surpresa ao observar como a vida mudara nas ltimas quarenta e oito horas. Dois dias atrs, pensava em comemorar seu aniversrio de trinta anos com uma festa entre amigos. Mas tudo fora diferente.
No era mais uma mulher sozinha. Tinha um beb em gestao, e precisava acompanh-lo com carinho. Como preparar-se para as consequncias dessa mudana?
A comear pelo apartamento. Sabia que, por ora, o nico quarto era suficiente. Mas, quando o beb estivesse prestes a nascer, teria que construir mais um aposento. Para ela? Ou para ele?
Antes de dormir, pensou em descer para guardar o bolo, o champanhe e os refrigerantes que permaneceram sobre a mesa. Queria ter certeza de que a porta fora bem trancada.
No tinha por que fazer um drama quanto  reao de paralisia que Jim apresentara. Ele parecera ausente e distante, como se a situao no dissesse respeito a sua vida. E aquele era um sinal de que o relacionamento entre os dois no iria melhorar.
Como algum conseguia ficar daquele jeito, sem se expressar, ao saber que seria pai? Jim estaria evitando maiores envolvimentos depois de um ano de relacionamento ntimo? Era verdade que aquela gravidez no fora planejada, mas por que mudar tudo por causa disso?
Levantou-se devagar e decidiu que no culparia Jim pelo pouco-caso com o beb. Afinal, ele sempre deixara claro que aquele relacionamento no podia ter laos fortes. Sabia disso desde o comeo.
Ao menos tivera a dignidade de permitir que Jim participasse de seu aniversrio e soubesse da gravidez no dia da confirmao. Isso, porm, no diminua a dor em seu corao. Ansiava por uma conciliao. Talvez estivesse pretendendo algo impossvel... e isso tambm fazia parte de sua dor. No fundo, sentia-se indefesa e insegura quanto a levar  frente, sozinha, uma gravidez.
Comeou a soluar baixinho, e as lgrimas escorreram por suas faces. Uma enorme tristeza invadiu seu peito, permitindo que emoes represadas pudessem sair, extravasar. Sentia que, chorando, estava aliviando tenses, pois desde que soubera do resultado do teste de gravidez, pela manh, no tinha deixado que as lgrimas rolassem.
De tristeza, alegria, paixo, indignao e raiva, o pranto correu solto, em lgrimas cada vez mais abundantes, sempre renovadas por uma profuso de soluos.
Sbito, seu ouvido captou um rudo semelhante ao estalar de madeira. Era como se algum subisse a escada de acesso ao apartamento. Eram nove degraus, e a cada passo podia ouvir o estalido de uma pessoa se aproximando.
 Teri?
Seria possvel estar ouvindo a voz de Jim? Ele no fora embora? Permanecera no restaurante e decidira subir para v-la?
Dignidade. Era disso que precisava naquele momento. No podia deixar que as emoes lhe dessem a aparncia de uma pessoa sem rumo. Levantou-se devagar, mas firme na deciso de no ceder quanto ao seu desejo de ter o beb.
Quando Jim entrou no apartamento, trazia, em uma das mos, as taas e o champanhe no balde de gelo. Na outra estava o bolo. Colocou tudo sobre uma mesinha e encheu o cristal bem devagar, com a bebida borbulhante.
Teri no podia acreditar no que seus olhos viam. Num momento como aquele, Jim ainda queria comemorar! Permaneceu quase em estado de choque, inerte e surpresa. Por que ele demonstrava tanta confiana enquanto enchia as taas com champanhe?
Parecia to leve e despreocupado... Parecia at que nada de extraordinrio havia acontecido. Para completar, acendeu a vela, que permanecia no bolo.
 O que est fazendo aqui?  perguntou ela, surpresa ao ver a chama brilhar.
 Ah! A est voc!
Jim transmitia uma aura de felicidade. Uma aura que a envolvia e a deixava sem direo. Ficou ainda mais confusa. Ele estava feliz com o qu?
 Pensei que voc tivesse...
Teri interrompeu-se. Claro que Jim no fora embora. Achava-se bem ali a sua frente.
 Pensou errado  ele respondeu, adivinhando o fim da frase.  Na verdade, acho que devemos celebrar!  exclamou com entusiasmo. Passou uma taa para Teri e tocou-a com a sua.  Um brinde muito feliz ao seu aniversrio. E ao nosso filho!
Tomou a bebida, e seu rosto parecia livre de qualquer tipo de tenso.
 Quando recebeu a confirmao sobre a gravidez?  indagou ele.
 Hoje.
 Hoje? E no mudou de idia quanto  deciso de ter esse filho?
 No, no mudei de idia  respondeu ela com convico.
 Acho uma excelente deciso!
A reao sbita de aprovao deixou Teri estupefata. Como poderia entender a cabea daquele homem? Seria apenas um subterfgio para manter o relacionamento  tona por um pouco mais de tempo?
Como podia ter demorado tanto para reagir  notcia da gravidez? Por isso ficara aquele tempo todo l embaixo?
 Diga-me, Jim... S agora voc assimilou o que est acontecendo?
 Sim. E voc? Conseguiu reagir de imediato  notcia?
Teri pensou que ainda a estava assimilando. Se fosse honesta consigo mesma, teria de admitir que sua primeira reao, pela manh, fora semelhante  dele. De total surpresa.
 Bem, afinal no foi um acontecimento planejado...
 E isso. Deve ter sido um choque, para voc, saber que ia ser me.
  verdade, foi mesmo. Afinal, ser me solteira tem muitas desvantagens...
 Pensei nisso enquanto estive l embaixo, sabe? E cheguei  concluso de que o melhor, para ns trs,  o casamento.
Teri sentiu outro choque ao ouvir isso. No estava preparada para aquela mudana de postura.
 Mas voc sempre disse que jamais voltaria a ser um homem casado!
 Ah, mas isso foi antes. Agora a situao  bem diferente.
 Espere! Est me dizendo que se dispe a ser um marido em tempo integral em vez de um amante eventual?
 Ora, isso vai levar um certo tempo.
 Mas voc no me ama a esse ponto!
 E da? Ns nos damos bem, e  isso que importa  ele respondeu, convicto.
 Nada disso. Voc sabe como  difcil viver o cotidiano desgastante da convivncia conjugal.
 Ora, temos a cabea no lugar!  claro que somos diferentes, mas podemos respeitar isso no dia-a-dia, como fizemos esse ano.
Jim tinha a fantasia de que podia vencer sem conflitos a convivncia diria? Muito interessante...
 Oua, no precisa esconder. Nem voc est passando por uma converso para me tomar como sua esposa, nem acho que faz o meu gnero como marido.
 Mas existe o beb. Devemos consider-lo.
 No preciso da sua bondade para me mostrar que tenho obrigaes para com a criana.
 Isso nada tem a ver com bondade, Teri! Quero que meu filho tenha meu sobrenome!
"Que orgulho mais machista!", pensou ela, indignada com o que julgou um preconceito de Jim.
Por que o filho no podia viver tranquilamente com o nome da me?
 Pois fique sabendo que o beb vai receber o meu sobrenome. Ou acha que "Adams"  uma palavra sem valor?
Jim levou as mos  cabea, em sinal de exasperao.
 Mas no se trata disso, Teri! Apenas quero dizer que o beb tambm  meu filho!
 No estou negando isso, ora!  respondeu ela com uma ponta de orgulho.  Mas parece uma loucura que nos casemos s porque  preciso dar seu sobrenome ao meu beb!
O rosto de Jim se contraiu, como se a tenso tivesse chegado ao limite mximo e ele j no suportasse tamanho desentendimento.
No ltimo ano, raros foram os momentos de conflito. Por isso, sentiu o sangue ferver. Era como se fosse explodir com o que achava uma tremenda falta de compreenso por parte de Teri.
Sabia que, naquele exato momento, mesmo que sem inteno, ela o comparava ao ex-marido. E isso era uma injustia. Wayne tinha sido relapso e pouco confivel, a ponto de perder uma mulher como aquela. Quanto a Jim, nunca abriria mo dela.
 Pretende me colocar de lado durante a gravidez?  perguntou sem rodeios, como se estivesse desconfiando de segundas intenes.
 Colocar de lado?  ela respondeu, espantada.  Que quer dizer com isso?
 H pouco, enquanto eu estava no salo, fiquei pensando e... bem, me veio uma desconfiana... a de que voc queria me ver fora da gravidez e de sua vida. Portanto, longe tambm do beb.
Teri balanou a cabea, como se estivesse lamentando a interpretao que Jim dera  situao. Ela quisera apenas deixar claro que o relacionamento poderia terminar, se ele achasse melhor assim. Jamais lhe diria para no assumir nenhuma responsabilidade em relao  criana.
 Isso fica a seu critrio  respondeu com calma.
  uma deciso que cabe s a voc tomar.
 Ento, estou tomando agora. E afirmou que quero participar de tudo!  respondeu Jim, enftico.
 Esse  mesmo o seu desejo?
  claro que sim!  ele disse de imediato, j sentindo a tenso amainar.  Quero muito participar dessa gravidez. Juro.
Tal declarao a surpreendeu. Por um momento Teri sentiu-se em dvida quanto ao que pensar em relao  vida em comum com Jim. Ele estaria mesmo falando srio quando propusera casamento? Seu estilo solto e descompromissado no combinava com o cotidiano de um pai, de uma pessoa que precisava se dedicar  rotina de casa, filho e esposa.
 Tudo bem. No tenho nada contra o beb conhecer o pai, e nunca me passou pela cabea impedir isso. Mas o casamento  outra histria. No quero me casar com voc.
Jim pareceu mais leve e despreocupado. Agora podia convenc-la das vantagens do casamento, pensou.
 Veja pelo lado positivo. Casar-se comigo pode ser uma tima deciso  comentou, sorrindo.  Assim, poderemos passar o resto da vida na cama.
Teri suspirou. Aquela era uma reao tpica de quem no sabia a diferena entre os prazeres da carne e a rotina do casamento.
 Preciso muito mais do que isso, Jim.
Ele sorriu, compreensivo. Claro que no teriam condies de permanecer anos a fio fazendo amor. Mas poderiam fazer isso durante boa parte do tempo. Com certeza.
Teri captou a mensagem oculta no brilho daquele olhar. Sentia a energia que vinha dele, seu calor sensual. Percebeu o flerte, a confiana no futuro e estremeceu. Jim lhe transmitia uma sensao to forte, to amorosa, que era impossvel permanecer impassvel a ela.
Teri no raciocinou se estava certo ou errado. Apenas recebeu aquela energia boa e gostou de imaginar como a vida poderia ser dali para a frente.
 Sei que o quer dizer  ele prosseguiu.  Mas ainda acho que a atrao sexual  um timo comeo, um ponto de partida positivo, alegre e acima de tudo fundamental.
 Fundamental?  repetiu Teri, com ar de desentendida.
 Isso mesmo. Afinal, passamos um tero de nossas vidas na cama  continuou Jim, como se no tivesse entendido o sentido da palavra que Teri acabara de pronunciar.  Acho que temos motivos para ficar orgulhosos de meu desempenho na cama porque agora temos uma prova viva disso!  zombou.
Teri no gostou do comentrio vaidoso e machista, mesmo sabendo que no passava de brincadeira.
 Pare com isso. Voc sabe tanto quanto eu que ser pai  muito mais do que ter um bom desempenho na cama.
Ela caminhou em torno da mesa onde estava o bolo com a vela acesa. Tinha de se distanciar. Sentia que o magnetismo daquele homem era muito forte, e que logo a venceria. Precisava demonstrar que, acima de tudo, estava preocupada com o futuro do beb.
 Querida, no fique assim. Relaxe  ele disse, com o tom de quem queria apaziguar os nimos.  Afinal, estamos falando de um assunto agradvel! Voc carrega um filho no ventre. No  maravilhoso?
Aquela era a primeira manifestao de alegria. Ele estaria realmente feliz porque dali a alguns meses seria pai?
Teri experimentou uma sensao de prazer. Se os sentimentos de Jim em relao  gravidez fossem mesmo esses, poderia ficar sossegada. Por isso, amenizou um pouco o tom crtico com que o vinha tratando desde que aparecera no apartamento. Mas ainda se ressentia do fato de que Jim a desejava como esposa apenas por causa da criana.
 Acho que vamos ter um beb muito saudvel e bonito  comentou ela, ao mesmo tempo em que o fitava com a desconfiana de quem no tinha terminado a lista de perguntas crticas.  Por acaso pretende continuar aparecendo como amante casual, a cada quinze dias?
 Pode ter certeza de que sou um amante muito dedicado  ele respondeu sem a menor cerimnia, lanando-lhe um olhar sensual enquanto avanava em sua direo, equilibrando as taas de champanhe nas mos.  Se precisar de ajuda, por favor, me avise. No fique sozinha durante a gravidez. Vamos ser scios nessa empreitada, est bem?
Era mais do que uma posio generosa, pensou Teri. Parecia mesmo uma declarao de princpios.
Mas... ser que Jim sabia que aquela "empreitada" significava compartilhar uma vida, e no apenas acompanhar uma gestao? Estaria sob o efeito da euforia, e por isso via apenas um lado da paternidade? Ser que desconhecia as responsabilidades que isso envolvia?
Viu-o colocar seu clice na mesa e apagar a vela. Observou a lenta ascenso da fumaa quando a chama foi apagada. Imaginou como Jim reagiria, como pai.
Seu interesse pela criana seria como uma chama reluzente em um momento, e em outro um lento apagar da luminosidade? Seria como fumaa, que se desintegra no ar?

CAPTULO VIII

No minuto seguinte Teri sentiu Jim a seu lado, caloroso e envolvente. Passou o brao por sua cintura, envolvendo-a por trs.
Seu corpo ansiava pelo contato, e ao primeiro movimento de aproximao sua sensibilidade aumentou. As ondas de desejo levaram-na a se excitar ainda mais.
Desejara aquele contato desde o primeiro minuto em que Jim pisara no restaurante. Quis esquecer que estava grvida. Seu corpo e seu corao ansiavam por um encontro ardente, em que Jim a desejaria mais do que em todos os momentos do passado. Percebeu ento que ele a queria tambm com o beb.
Jim aproximou a boca de seu pescoo e, num gesto suave, beijou a curva entre a nuca e o ombro. Teri reagiu abaixando a cabea, para que as carcias pudessem atingir outros pontos sensveis. Adorava quando ele soltava a imaginao e fazia de seu corpo um campo aberto a sensaes e prazeres.
Percebia que a maneira de ser tocada com a boca, num movimento lento e sedutor, transformava os beijos em algo profundo e cheio de sexualidade. Jim conseguia despert-la como um vulco ao levar os lbios a sua orelha, mordiscando o lbulo.
 Se meu desejo falasse, diria que est ansioso para ver voc debaixo do lenol...
  mesmo?  reagiu Teri, e, como se fosse uma gata, aninhou-se no ombro masculino.
Tambm queria que estivessem embaixo dos lenis. Haviam ficado longe durante trs semanas, um perodo no qual sentiu como se estivesse perdendo o amante.
A aproximao fsica de Jim, seus beijos no ombro e na nuca, deixaram-na em chamas. Sentiu que as mos fortes subiam em direo aos seus seios. Teve um ligeiro estremecimento, como se fosse levar um choque, uma reao tpica de quem estava com o busto sensvel.
 Devagar...  pediu.
 Machuquei voc?
 Meus seios esto um pouco inchados e doloridos. Acho que  por causa da gravidez.
 As mudanas no corpo aparecem to rpido assim?
 Provavelmente, porque nunca experimentei uma sensibilidade to forte como agora  comentou ela lentamente.
Ao terminar a frase, sentiu-se em dvida quanto ao apetite sexual de Jim. No sabia se queria corresponder aos estmulos dele, embora soubesse que era um envolvimento prazeroso.
Estava confusa mais uma vez. Sentia-se dividida entre aderir ao prazer que podiam proporcionar um ao outro e fazer daquele momento uma nova oportunidade para entender o futuro, no qual entraria um novo personagem.
 Acho que vou ficar com a cintura cada vez maior, daqui at o final da gravidez...  disse baixinho.
 E isso a preocupa?  respondeu Jim, beijando-lhe o ombro enquanto fazia uma lenta e gostosa carcia no ventre ainda reto, o que a deixou quase paralisada de prazer.
 Mas talvez voc me ache menos... desejvel  balbuciou Teri.
 O que voc disse?  ele respondeu, em meio a um sorriso maroto.  Fazer amor com voc, agora, ser ainda mais excitante. A gravidez torna as mulheres mais atraentes, sabia? Alm disso, fico emocionado s em imaginar que o garoto est a dentro, crescendo...
Garoto?
Teri reagiu como se tivesse sido lanada num banho de gua fria. Aquele comentrio interrompeu um envolvimento que at aquele momento vinha sendo perfeito.
Mais essa, agora!, pensou.
Primeiro, Jim sugerira que o sobrenome do beb devia ser apenas o dele. Em seguida, o orgulho e a vaidade levaram-no a afirmar que sua potncia masculina fora a nica responsvel pela gravidez. E agora essa histria de que a criana em gestao seria um garoto.
Ela comeou a ficar enfurecida. Eram muitos caprichos para um homem s.
Imediatamente soltou-se do abrao, enquanto deixava em cima da mesa a taa de champanhe que segurara at ento. Decidiu fazer com que Jim encarasse o fato de que o beb poderia no ser um menino.
 Mas que histria  essa? Por que voc descartou a possibilidade de termos uma menina?  falou, em um tom furioso.
 Uma menina?  perguntou Jim, como se isso fosse estranho a seus planos e sonhos.
  claro! Pode ser uma menina, e to feminina quanto eu! No um garoto parecido com voc! Como acha que vai reagir, se vier uma garotinha?
Era uma pergunta desafiadora, que Teri precisava fazer antes que fosse muito tarde. Sabia que essa era uma questo afetiva importante, porque seu relacionamento amoroso com Jim dependia do fato de ele aceitar que poderiam ter uma filha.
Ser que Jim se importaria em acompanhar a gravidez se pudesse adivinhar que nasceria uma menina? Seu cuidado com a me seria o mesmo caso tivesse que ajud-la a criar uma garota?
 Bem... uma menina...  ele comeou a falar, e parou.
 Casais grvidos podem ter garotos ou garotas, sabia?  ela continuou em tom desafiador.
Estava ressentida. Muito, por sinal. Porque amava profundamente aquela criana, independentemente do sexo.
Jim coou a cabea e pareceu fazer uma careta. Era como se a situao no exigisse uma resposta clara.
 Bem... no pensei ainda... Quero dizer, no sei como me sentiria se viesse uma menina. Afinal, no h mulheres em minha famlia  comentou, bastante confuso.
 Mas isso no faz nenhum sentido! H cinquenta por cento de possibilidade de nascer um menino, e cinquenta por cento de ser uma menina! No d para adivinhar, apostar com tanta certeza que teremos um garoto.
O raciocnio lgico de Teri era impecvel, pensou Jim.
 No  isso... Bem, claro que voc est certa  respondeu ele, sem muito entusiasmo.
Naquele momento, ouviram a campainha da porta do restaurante tocar. Teri olhou o relgio, que marcava dez e meia. Quem poderia estar tentando entrar numa hora dessas?
 Deixou as luzes acesas, Jim?  indagou, dando por encerrados a comemorao de seu aniversrio e o clima de romance.
Tudo havia se tornado sombrio e incerto. No queria estender mais o mal-estar provocado pelos desentendimentos com Jim.
Ele tentou se recordar das luzes, mas tudo o que conseguiu foi lembrar que subira com o bolo e o champanhe, e que deixara a escada iluminada.
 Desculpe. Devo mesmo ter deixado acesas as luzes.
Teri encaminhou-se para os degraus com a firmeza de quem no queria permanecer no apartamento nem mais um minuto. Fora uma interrupo muito oportuna, pensou. J no queria continuar a conversa com Jim. Odiava-o por ser to egosta e autocentrado.
Na verdade, ele dava a impresso de que no tinha um comportamento coerente em circunstncias que exigiam posies claras.
 Espere, vou com voc!  exclamou Jim, seguindo-a.
 tima idia  disse Teri, j descendo os primeiros degraus.  Assim voc aproveita e vai para sua casa mais depressa!
 O qu?  ele perguntou, espantado.
 Voc ouviu o que eu disse!  falou Teri, j do meio da escadaria.  Acha que no percebo nada, ? Pensa que eu poderia ser uma me formidvel, mas s se estivesse grvida de um filho. Como  possvel que seja uma filha, ento sou formidvel apenas pela metade! No vou para a cama com um homem que tem tanto preconceito!
 Mas eu nunca disse isso!  ele respondeu enquanto descia a escada atrs de Teri.
 Nem precisava dizer com todas as letras! Como pude ser to ingnua? Voc me quis para uma aventura sexual! Aparece  noite, vai embora no dia seguinte... As vezes nem isso! Sai de madrugada, me deixando sozinha!
 Espere a!  exclamou Jim, decidido.  Deixe-me lembr-la de algo muito importante. Voc e eu fizemos um acordo quando nos conhecemos. Na nossa primeira noite. E voc  to responsvel por isso quanto eu!
 Voc foi muito claro em estabelecer os limites para nosso relacionamento. Sexo e comida. Apetites bem satisfeitos, no?  falou Teri ao atingir o salo vazio e silencioso do restaurante.  No quis investir nem mais um minuto alm do necessrio em nossa relao. E, agora, parece-lhe terrvel a idia de desperdiar mais tempo ajudando a criar uma filha!
  que no sei muito sobre garotas... Como so, o que querem...
 Tambm no sabe lidar com mulheres crescidas, sabia?  respondeu Teri, lanando-lhe um olhar que indicava raiva e aborrecimento.
 Espere a! Voc fala como se no tivssemos passado momentos excelentes, em que fomos parceiros em tudo.
 Comida e sexo  repetiu Teri de maneira provocativa.
 Mas ns tambm sabemos conversar! Gosto da sua companhia. Por que no reconhece isso?  indagou Jim.
Teri alcanou a porta e desativou a tranca interna da maaneta quando percebeu que havia algum esperando do lado de fora. Abriu uma pequena fresta.
 O que deseja? O restaurante fechou s nove horas  disse em um tom um tanto agressivo, de quem estava em casa e no queria ser importunada.
 Sei disso. Desculpe-me, mas...  falou uma voz masculina muito familiar.
 Ei, quem est a fora?  ela quis saber, intrigada.
 Oh! E voc, Teri?  perguntou o homem.
 Wayne?
O recm-chegado deu-lhe um sorriso charmoso, e ela abriu mais a porta, para receb-lo. Deixou Jim, literalmente, em segundo plano.
 Sim, sou eu. Estou de volta  cidade. Pensei em passar por aqui, desejar-lhe um feliz aniversrio e deixar uma caixa de seus chocolates belgas favoritos.
Jim olhou, espantado, para o homem que conversava com Teri. Aquela presena despertou-lhe um cime incontrolvel.
 Mas quem  esse sujeitinho?  perguntou de forma irada, avaliando Wayne da cabea aos ps, como se estivesse prestes a enfrent-lo em uma luta.
Tinham o mesmo porte fsico, mas o tipo de personalidade de Wayne era menos agressivo do que o de Jim.
 Pelo visto, estou incomodando...  disse Wayne, como se estivesse pronto a bater em retirada, deixando-os a ss.
 No, Wayne, no se preocupe  adiantou-se Teri, como se a visita aparentemente inoportuna fosse bem-vinda.  Jim j est de sada, no  mesmo?  disse, dirigindo-se ao amante perplexo.  Ele  um velho amigo, Jim. Temos amigos homens, sabia? Eles conhecem a data de aniversrio, o presente preferido...
Jim contraiu o rosto ao perceber que Teri fazia uma crtica nada sutil a seu comportamento. "Ela no se importa comigo", pensou.
 No se preocupe  falou Wayne, dirigindo-se a Jim.  Teri e eu somos velhos amigos.
 Estranho que ela nunca tenha mencionado sua existncia, no acha?
Jim parecia um animal defendendo a fmea e o territrio, pensou Teri. Mas no tinha o mnimo direito de agir daquela forma possessiva.
 Bem, Jim, voc nunca me falou sobre sua ex-mulher  falou, com certo cinismo.  E nunca me perguntou sobre meu ex-marido.
 Seu ex... o qu?  indagou Jim, como se estivesse frente a frente com um ser fantstico.
 Ex-marido! Sim, Wayne  meu ex-marido.  Teri recuou dois passos, para permitir que ele passasse.  Entre, Wayne, por favor.  Em seguida, fez um aceno na direo do amante.  Boa noite, meu caro. At a prxima... se houver.
Teri sentia que essa era a lio perfeita para Jim, naquele momento. Queria mostrar-lhe que sua vida no podia ser o centro de um relacionamento. Em seu ntimo, percebeu que at poderia se arrepender, mais tarde, da pequena maldade que fazia. Mas naquele instante era como se todo o seu corpo estivesse em festa, depois de tantos desaforos.
No momento em que Wayne ia entrar, foi barrado pelo brao de Jim, estirado contra a parede, a pouco centmetros do visitante. Os olhos azuis brilhavam como duas esferas incandescentes.
 No v dando asas  imaginao sobre reatar com Teri  disse, como se estivesse na condio de um sargento se dirigindo ao recruta.  Pode ser o ex-marido, mas ela est grvida e eu sou o pai da criana  acrescentou sem tirar os olhos da figura de Wayne.  Fique sabendo que nada, nem ningum, vai me tirar do caminho do meu filho!
Depois do desabafo, Jim baixou o brao e caminhou para fora. Estava feliz por ter sido, ao menos por um momento, to positivo, em meio aos acontecimentos confusos daquela noite.
Podia dormir tranquilo porque tinha a certeza de que Teri no faria nada com Wayne. Ou, ao menos, nada que pudesse mago-lo.

CAPTULO IX

Jim passou boa parte da manh tentando se concentrar nos documentos sobre as negociaes na Nova Zelndia. Dedicou-se a fazer um conjunto de possibilidades e passou tudo para a assistente.
Sua mesa de trabalho estava limpa, sem trabalhos pendentes. Relaxou pela primeira vez, desde o ltimo encontro com Teri. Melhor seria dizer "desencontro", pensou, suspirando. As mulheres eram mesmo seres muito extravagantes. Quem poderia compreend-las?
Tinha lido um livro, certa vez, chamado O retorno de Lilith. Versava sobre o mito de que houvera, antes de Eva, uma primeira mulher. Era to sedutora que nem mesmo o prprio Ado a tolerara, e Deus a expulsara do paraso.
Agora concordava com a histria contada no livro. Realmente, a mulher parecia um ser de outro planeta, que se comunicava com os homens por meio de mensagens que vinham de um mundo profundo, subterrneo.
No tinha dvidas de que Teri fora doce, sensual e envolvente durante todo o tempo em que se viram. Haviam passado bons momentos juntos.
Mas sabia tambm do que eram capazes as mulheres. Podiam se tornar uma ameaa quando insatisfeitas, e faziam de tudo para obter o que queriam.
 Jim?  chamou a assistente.
 O que houve?  respondeu ele, sobressaltado, ao ser interrompido da peregrinao ao universo dos problemas conjugais.
 Quer arquivar mais alguma coisa sobre o encontro da Nova Zelndia?
Marvin Crosby, sua assistente, no era de Vnus nem de Pluto. Era apenas uma senhora de meia-idade, me de dois filhos, com os ps plantados na Terra.
Jim sentia-se confiante em sua presena. Era uma pessoa previsvel, sensvel e em quem se podia confiar.
 Preciso de um conselho seu, Marvin. Sente-se, por favor  pediu, decidido a consult-la sobre assuntos que com certeza eram de sua competncia.
 Ah, claro!  exclamou Marvin, com um indisfarvel ar de orgulho.
O dia, para Jim, tinha sido perfeito em relao ao trabalho. S no conseguira sentir satisfao plena sobre o negcio fechado com o pessoal da Nova Zelndia.
Claro que a gravidez de Teri no saa de sua cabea. Ela queria ter aquele filho e o colocara contra a parede, sem dar-lhe nenhuma possibilidade de escolha. Suspeitava at mesmo que ela poderia voltar para o ex-marido.
 Marvin, preciso conversar com algum que tenha a sua experincia. Como mulher e como me.
 Achou a pessoa certa, Jim.
 Acha razovel que algum como eu, que s frequentou escolas exclusivas para meninos, que foi criado pelo pai porque perdeu a me quando tinha oito anos, queira um filho homem?
 Parece uma pergunta bem clara, mas... Ei, espere! H algum esperando um filho seu?
A secretria foi direto ao ponto, pensou ele. Como um boxeador experiente.
 Sim, h. Recebi a notcia na sexta-feira  noite. Fiquei por l, para oferecer todo o apoio que um pai pode dar, e o que recebi em troca? Crticas! Ela perdeu a calma comigo porque acha que s penso em ter um garoto!
  mesmo?  foi o comentrio lacnico de Marvin.
Jim continuou a aguardar algum consolo para seu drama. Em vo.
 E a, o que acha?  perguntou por fim.
 Est pensando em casar-se com ela?
 Eu disse isso naquela mesma noite. Mas acontece que ela no quer se casar comigo.
  mesmo?  indagou novamente Marvin, como e estivesse mergulhada em cautela ao comentar uma questo to delicada para seu chefe.
Mas isso no ajudava Jim em nada. Ele aprendera que era preciso, sempre, colocar o dedo na ferida, no importando quanto isso doesse.
 Mas  o meu guri, entende, Marvin? Ela no tem o direito de me expulsar de sua vida, no acha? Tivemos um relacionamento intenso por um ano, e nunca discutimos. Pode acreditar nisso?  prosseguiu ele, como se estivesse prestes a explodir, de tanta tenso.
 Vejamos... Se estou entendendo bem, voc quer o beb, seja ele menino ou menina. Certo?
 Sim, isso mesmo! No sou do tipo que fica borboleteando de flor em flor. Sabe que assumo responsabilidades e riscos, no importam quais.
 E voc quer meu conselho sobre o assunto?
 Oua, se puder me ajudar a esclarecer alguma coisa, eu lhe agradeceria muito.
 Gravidez  um acontecimento que muda tudo na vida sentimental da mulher, Jim. Nada fica igual depois disso. At o homem se torna menos essencial.  preciso aprender a ler os sinais emitidos por uma pessoa grvida.
Jim espantou-se por um momento. Sim, Marvin tinha razo! Era exatamente isso que tinha acontecido com Teri. Ela mudara depois que soubera da gravidez.
  verdade... Vou precisar me informar muito sobre como ficam as mulheres, na gravidez. Deve haver livros sobre isso, no?
  claro. Mas boas mesmo so as revistas femininas, publicadas especialmente para esse pblico. Elas do muitas dicas.
 Boa idia, Marvin. Excelente sugesto!  ele respondeu, radiante.  Mais uma coisa... Como  dar uma "floreada" para a mulher, nessas horas?
 Dar uma "floreada"? Como assim?
 Ah, bem... Quero dizer, agradar a mulher, dar-lhe presentes que sejam importantes para essa fase de gravidez...
Marvin fez uma expresso engraada, como se aquele fosse um caso sem soluo.
 Sei o que quer dizer, mas nesse ponto posso ajudar muito pouco.  preciso que voc adivinhe o que ela deseja, sonha ou admira muito. E, isso, s os dois vo poder descobrir.
 Quer dizer que, se eu no entrar nesse jogo, nunca vou ser bom o bastante para mulher nenhuma?  ele perguntou, indignado, colocando o p sobre a mesa.  E minhas necessidades, quem vai atend-las?
Jim ficou alterado ao pensar no assunto. Levantou-se de um salto e ps-se a andar em crculos no escritrio. Sentia-se nervoso porque revivia todos os ressentimentos que o assaltaram quando de seu primeiro casamento.
 Isso parece uma armadilha! E um jogo de poder malicioso!  exclamou, alterado.  Algo do tipo "ajoelhe na minha frente ou no ter o que deseja de mim". E como dizer: "Entre na linha!". Parece uma brincadeira de mau gosto, para me testar a vida inteira!
 Oua, no conheo essa pessoa. Estava apenas sugerindo que talvez...
  uma cilada, Marvin. Ela quer me agarrar usando com a criana. E uma maneira de querer me subjugar...
 Mas eu no disse que ela estava fazendo isso, Jim.
 Isso tudo no passa de um quebra-cabea, sabia? O que voc falou  apenas uma pea, que se encaixa no jogo muito maior.
Marvin levantou, disposta a encerrar a conversa.
 Bem, tudo isso pode ser verdadeiro, mas o que h de concreto  a gravidez. E, no final de uma gravidez, sempre haver uma criana. Isso  o que importa. Se eu fosse voc, me preocuparia com a gravidez  comentou a assistente antes de sair e lanar-lhe um olhar de quem recomendava prudncia e, acima de tudo, sabedoria.
Jim permaneceu na sala ainda um bom tempo, assimilando o que a secretria comentara. Precisava agir. Mas em que direo?, perguntou a si mesmo. O que deveria fazer?
Definitivamente, no tinha experincia nenhuma nesse tipo de situao. Tinha de admitir que estava totalmente perdido. A deriva, num mar agitado e pronto a engoli-lo.

CAPTULO X

Cinco semanas haviam se passado desde o ltimo encontro com Jim. Era domingo, e Teri encerrou as atividades no restaurante aps atender o ltimo cliente.
Seu corao palpitava, acelerado, a cada nova pessoa que entrava no salo. Olhava, ansiosa, para a porta de entrada, pensando que pudesse ser Jim. Em vo aguardou at a hora de encerrar o dia. J no suportava alimentar aquela expectativa frustrante.
Tudo indicava que seu relacionamento amoroso com aquele homem era mesmo uma pgina virada em sua vida. Sentia muita amargura por ter decidido no envolv-lo em seu futuro, ou no da criana. Tomara a deciso de cabea quente, naquela sexta-feira, durante a discusso.
Mas no se sentia disposta a rever a deciso. Por isso, precisava continuar com sua vida. Sozinha.
Queria aproveitar a folga do resto do dia para tomar sol e cuidar das plantas, no quintal do sobrado. Que bom... Estaria de folga at tera-feira. Gostaria de ficar assim at o final da gravidez.
Mas como? S em sonhos. Porque, logo em seguida, passou a se preocupar com a semana que vinha pela frente, e que seria to atribulada quanto as outras. Quem dissesse que a gravidez era um estado divino para a mulher deveria ser internado por insanidade mental.
Aps trancar a porta, deixou que Dylan acabasse suas tarefas na cozinha e subiu para o apartamento. Iria trocar a roupa de trabalho, colocar cala e camisa bem folgadas. Seu uniforme tambm precisaria se adaptar s mudanas de seu corpo durante a gravidez. Imaginou desenhar algo bem descontrado para vestir no dia-a-dia. J no aguentava o conjunto que a acompanhava no trabalho.
Ao passar pela mesa que Jim frequentava, sentiu um aperto no corao. Recordou-se do ltimo encontro, naquela noite, quando ele levara o bolo com a vela. Lembrou-se tambm da comemorao interrompida, da conversa que haviam tido. Da reao que ele tivera ao ouvir a notcia de que, dali a alguns meses, seria pai.
Teri no sabia agora o que fazer com essas lembranas. Deixaria para mais tarde a tarefa de provar que Jim estava errado.
Mas errar e perder no eram palavras que constavam do vocabulrio daquele homem. Se estava mesmo decidido a ter o beb, qual a diferena entre ter um menino ou uma menina?
Chegou a seu quarto e sentou-se na beirada da cama, para tirar os sapatos. Repetiu para si mesma que seria melhor ficar sozinha do que mal acompanhada. Queria traar seus planos e faria o impossvel para implement-los. Um bom comeo nessa direo era tomar sozinha as decises que diziam respeito  criana.
Aquele sentimento de solido iria passar, resignou-se. Um dia, com certeza passaria.
Respirou fundo, levantou-se, trocou de roupa e decidiu fazer o que tinha planejado. Cuidar das plantas no quintal no era uma atividade que exigisse muito. O ptio cimentado tinha muitos vasos, com flores e folhas que precisavam de tratamento.
Teri desejava colocar novos vasos, com mudas de crisntemos, rosas, violetas, jasmins e sempre-vivas. Era preciso transplant-las com terra bem-tratada, nutri-la e esperar que os brotos crescessem com vigor.
Uma tarde radiante de sol, e a perspectiva de acompanhar as plantinhas no quintal, conseguiram torn-la bem-humorada.
Usou uma tesoura para abrir os sacos de terra e de fertilizante. No momento em que se preparava para despej-los numa bandeja, a fim de fazer a mistura, ouviu uma voz masculina, alta e estridente.
 Mas o que  isso, Teri? O que pensa que est fazendo com essas coisas?
Colocou de lado, em sobressalto, os sacos de terra e o fertilizante. Ento voltou-se para olhar o homem que acabara de falar, e que deveria estar longe de sua vida.
Jim estava a poucos passos dela, com os braos cruzados e uma expresso que mostrava perplexidade.
 Sabia que grvidas podem pegar infeco nos brnquios por causa desse tipo de fertilizante?
Antes que ela pudesse se recompor para reagir quela interferncia, teve a mo agarrada por Jim, que a puxou para longe da mesa onde estavam colocados os sacos. Ele a levou at uma cadeira e a acomodou l. Ao sentir-se livre, Teri sentiu que uma irritao profunda tomava conta de seu ser.
 Por favor, pare com isso! Acha que  dono de minha vida? Nunca mais faa algo assim, ou vou ser obrigada a proibir que entre aqui.
 Sinto, querida, mas acho que precisa cuidar melhor de voc e do beb  ele respondeu, cauteloso, ignorando a ameaa.  Passei por aqui para ver como est, e o que encontro?
 Algum cuidando de sua prpria vida, e que no quer ser importunada!  respondeu ela, com a suspeita secreta de que Jim tinha realmente o direito de saber como estavam passando ela e o beb.
 Mas no  preciso colocar sua segurana e a de nosso filho em risco  ele respondeu com convico. 
 Essas coisas tm produtos qumicos que so perigosos para uma mulher grvida.
Teri quase argumentou que aqueles mesmos produtos no eram nocivos para as plantas, mas calou-se. Percebeu que a reao de Jim era a de algum que levava a srio um possvel dano.
 S estou praticando um pouco de jardinagem, ora!
Jim relaxou a guarda, e deu uma olhadela em direo  mesa onde haviam ficado os sacos.
 Por favor, diga-me o que quer fazer. A posso colocar no lugar certo, ajud-la.
 Imagine s! Desde quando faz trabalhos com jardinagem?  Teri indagou, em um tom de crtica.
 Espere a! Voc no respondeu a meu oferecimento. Por que est sempre me interrompendo, me censurando?
 Esta  apenas uma reao de surpresa  ela respondeu, meio sem jeito.  Eu jamais poderia imagin-lo fazendo esse tipo de trabalho.
 Bem, sei que essa tarefa exige qualificao especial, mas posso seguir instrues, sabia? No sou to tolo assim.
 Est sendo gentil em oferecer ajuda. Obrigada. E desculpe a irritao.
Teri e Jim entreolharam-se, com a desconfiana de que um invadira a privacidade do outro.
 No vai ser nada bom se o beb ficar doente por causa de alguma infeco na me  comentou ele.
"Ora, o beb!", pensou Teri.
Ento ele estava querendo dizer que se importava apenas com a criana? Que a me devia se cuidar simplesmente para garantir o bem-estar do novo ser?
Jim voltou-se para a mesa e passou a misturar com cuidado pores de terra e fertilizante, segundo a receita dos rtulos.
 Acha que estou fazendo a quantidade certa?
 A poro de fertilizante  dois teros menor do que a de terra  ela respondeu, decidida a no entrar em nova polmica.
A presena daquele homem a desconcertava. Imaginou que Dylan o deixara subir pensando que a visita seria uma surpresa simptica. O cozinheiro no sabia que ambos estavam com as relaes estremecidas.
Por um instante, porm, experimentou um sentimento de satisfao por Jim se encontrar ali. No fundo, ainda alimentava a esperana de que ocorresse uma evoluo naquele relacionamento. Isso tinha que acontecer, pensou. Do contrrio, como tratariam de tantas coisas importantes?
Mal se conheciam. Pouco sabiam da vida um do outro. Nem mesmo imaginavam como desempenhariam os papis de me e pai.
De todo modo, porm, Jim tinha sido seu amante por mais tempo e com mais intensidade do que qualquer outro homem, depois do divrcio...
Observou-lhe as costas largas, os ombros retos. Viu que estava bem-vestido. Jeans preto, camisa verde-gua e colete tambm preto enfeitavam o corpo esbelto e alto.
Naquele momento, ela experimentou o secreto desejo de que todos os desentendimentos pudessem ser superado naquela tarde. Desejou que seus corpos se encontrassem ardentemente,  noite. Constatou que a atrao sexual nada tinha a ver com os problemas prticos que pedem resoluo no dia-a-dia. Uma foge do outro, pensou.
Percebeu que Jim agia com cautela quanto  mistura das partes. Fazia as medidas devagar e com movimentos calculados mesclava as pores, at chegar ao resultado final.
Nada errado no que ele fazia, claro. Apenas no devia sentir prazer naquilo.
Teri notou que essa era outra diferena entre ambos. Deu-se conta de que Jim estava ali para fazer-lhe companhia, e que isso no tinha nenhuma relao com sentir prazer em praticar jardinagem. Fazia isso somente por ela. Ou seria para o beb, a fim de mant-lo em segurana?
Aquela visita era um bom sinal. Mostrava que Jim poderia aprender a sentir prazer em atividades que no se relacionassem  cama. Isso lhe deu um sentimento de satisfao. V-lo ali, cuidando das plantas para ela, era algo muito agradvel.
O fim de tarde lanava um colorido diferente no cabelo masculino, banhando-o de semitons, entre o cinza-claro e o grafite-escuro. Teri pensou no prprio cabelo. Precisava fazer uma visita ao salo de beleza o mais rpido possvel.
 Como vai querer distribuir as plantas nos vasos, querida?
 Cada rosa vai ganhar um espao prprio  respondeu ela, com um leve acento de ansiedade.  Pensei em colocar trs crisntemos e trs violetas em outro vaso, e trs jasmins com sempre-vivas em um terceiro recipiente.
 Quer que eu coloque flores da mesma cor em cada vaso?  indagou ele.
  melhor misturar as cores. Os crisntemos e as violetas j esto mesclados. No precisa se preocupar com eles. Pensei em colocar flores amarelas com vermelhas, e juntar o tom de azul ao lils.
 Perfeito.
 Deixe um espaamento entre elas, por favor. Assim as razes podem se desenvolver direito.
Jim lanou um olhar de desafio para Teri.
 Posso no ser um jardineiro, mas aprendi um pouco de lgica, sabia?
 Sinto muito. E que pediu instrues sobre como fazer o servio...
Ele continuou a preparar os vasos, evitando responder ao pedido de desculpas.
Teri ficou alegre por estar ali, junto quele homem. Pensou nos momentos de extremo prazer que, em outros tempos, haviam proporcionado um ao outro. Seus olhos percorreram o movimento das mos de Jim, arrumando as plantas nos vasos. Lembrou-se daquelas mesmas mos acariciando seu corpo, a entrega, o prazer do toque masculino. Teria perdido esse toque? E Jim, teria se esquecido das carcias que ela fazia?
Fora por isso que viera? Ou teria sido pela preocupao de verificar se o beb estava sendo bem tratado? Estaria sendo vista apenas como a me de um garoto?
Ao se perguntar isso, deu-se conta de que no sabia quem eram os pais de Jim. Calculou que cedo ou tarde ele contaria sua vida, e por isso no devia se antecipar, fazendo perguntas curiosas. S Jim poderia escolher a hora de falar esse tipo de coisas.
 Voc est bem, Teri?
 Nada mal, na verdade  respondeu ela de maneira vaga, determinada a ser positiva.
Jim lanou-lhe um olhar de preocupao.
 Algum sinal de enjo?
 Um pouco. Sobretudo quando acordo.
 Esse enjo lhe d... vontade de soltar tudo o que h no estmago?
 Bem, parece que todo enjo s termina quando eliminamos o que nos faz mal.
 E o que tem feito quanto a isso?
 No estou tomando nenhum medicamento, se  o que quer saber  respondeu Teri, sabendo da preocupao dele quando a produtos qumicos.  Mas no sou nenhuma tola. Alis, no ouvi falar nada contra grvidas poderem mexer na terra e fazer mistura com fertilizantes.
 No ouviu falar? Como assim? No est lendo tudo sobre o que podem ou no fazer as mulheres que esperam filhos?  reagiu ele, preocupado.
Teri ficou pensativa com a pergunta. Desde o momento em que soubera da gravidez, no consultrio mdico, no se informara mais sobre o assunto. Na verdade, sentia que o melhor a fazer era esquecer que estava grvida. No tinha como mostrar interesse em detalhes de como se sentem as mulheres durante a gravidez se no havia ningum com quem compartilhar isso.
 Querida, o que est sentindo agora?  Jim perguntou, assustado.  Est pensativa... meio plida...
A ansiedade na voz masculina a tirou daqueles pensamentos.
 Acho que ter um beb  parte da natureza da mulher. Nosso corpo est preparado para isso, e imagino que devo simplesmente segu-lo.
 No est se preocupando com a criana? Em mant-la bem, saudvel?
Preocupando-se com o beb?
A frase fez com que pensasse, mais uma vez, que Jim apenas se ocupava da criana. Que no se incomodava nem um pouco com o que pudesse acontecer a ela.
 Claro que estou tendo todo o cuidado do mundo com meu filho!  respondeu ela em tom firme.  Mas no tenho tempo para ficar obcecada com a gravidez. Levanto cedo para ir aos mercados, fazer compras para o restaurante. Luto a manh toda contra os enjos. Quando volto para casa, tenho que fazer o cardpio e acompanhar o almoo. Depois que todos os clientes vo embora, fico to cansada que tiro uma soneca antes de comear a rotina do jantar, s trs horas da tarde. Como v, no me sobra tempo para ler nada.
Seu corpo estava se transformando a cada dia, mas o dele no se alterava um centmetro. E Teri tinha que conviver com as suspeitas de Jim, de que no estava se portando bem como grvida?
 Ento, sr. Sabe-tudo  pressionou-o , que fazer para ler todas as informaes sobre como diminuir os riscos da gravidez? Agora, por exemplo, acha que  melhor eu me retirar para deitar em vez de me dedicar a algo de que gosto muito, que  tomar sol?
 E claro que deve fazer o que mais lhe agrada, querida.
 Oh, muito obrigada  respondeu ela, irnica.  Se estivesse na nona semana de gravidez, saberia o que  se sentir menos eficiente ou cheio de si.
Jim teve uma reao de surpresa e ficou paralisado, sem saber o que responder. Seus olhos se dirigiram a ela com um misto de censura e decepo.
Teri fechou os olhos e sentiu-se como uma nufraga, em meio a enormes ondas de incerteza. Tornara a ser agressiva com ele, apesar de todas as boas intenes que tinha.
Mas qual era a satisfao de sentir-se independente quando estava lutando para sentir-se protegida?
Se fosse honesta consigo mesma, admitiria uma verdade bastante simples: precisava de algum que cuidasse dela, no do beb. E era muito difcil esperar isso de Jim.
Ouviu o barulho da gua da torneira. Viu-o lavando as mos, aps dar por concludo o servio. Sentiu vertigem e fechou os olhos, esperando que o mal-estar passasse.
Segundos depois, ainda zonza e desapontada, abriu os olhos e o observou mais uma vez. Estava enxugando as mos. Tinha receio de mirar nos olhos dele e deparar com algum tipo de rejeio. E se Jim passasse a no querer mais nenhuma aproximao mais ntima?
 Muito obrigada por arrumar os vasos  agradeceu, mas refletiu que estava dizendo isso um pouco tarde.
 Ainda no terminei.
 Tenho certeza de que fez o melhor que podia  respondeu Teri, perdendo completamente o interesse na jardinagem.
Tinha a intuio de que nunca conseguiria apreciar os vasos que Jim preparara, pois isso faria com que se lembrasse daquele momento. Um momento em que poderiam ter recuperado a paixo, mas que novamente terminava em mal-entendidos.
 Espere um pouco, querida. Eu quis dizer que no terminei com voc. No vou aceitar ser colocado para fora dessa vez, sabia?
As palavras duras de Jim bateram no corao feminino como as guas do mar contra um rochedo, provocando um enorme impacto. Ele aproximou-se com uma postura de quem crescera tanto que Teri sentiu-se pequenina, como uma criana.
 Oua o que tenho a lhe dizer, por favor  disse, resoluto.
Sentou-se em frente a ela e segurou-lhe os braos de um modo firme e enrgico. Quando recomeou a falar, notou que Teri se sentia frgil e carente.
 Voc vai se casar comigo. Entendeu bem? Precisa fazer isso, porque  o que o bom senso manda. E a nica coisa certa, agora. Para gerar um beb,  preciso haver unio entre uma mulher e um homem. Um casamento tambm  construdo por duas pessoas, queira voc ou no. Ser que consegue entender isso? Ou vai continuar agindo com uma adolescente teimosa o resto da vida?

CAPTULO XI

Ser que ela ouvira bem? Jim a pedira mais uma vez em casamento? Como isso era possvel, depois de tudo o que acontecera entre eles?
A surpresa de Teri foi aumentando at deix-la boquiaberta. No conseguia achar as palavras para expressar o que estava sentindo. Sua cabea parecia em um redemoinho. Parecia que um tufo levava todos os seus sentimentos de roldo, arrastando suas resistncias.
Quando ela se deu conta do que acontecia, viu que Jim estava to perto que o beijo foi inevitvel.
No foi um beijo sensual, como aqueles que costumavam trocar. Parecia mais intenso e duro, marcado por uma paixo urgente e desesperada.
Passado o primeiro minuto, Teri comeou a sentir uma intensa atrao pelo amante e foi perdendo o controle sobre seu corpo.
Agiu como se fosse uma terra sedenta, havia muito sem contato com a gua. Uma terra ressecada, que aos poucos recobrava a vida, e que reconhecia, a partir das prprias entranhas, o sabor do lquido primordial.
Teri reagiu de maneira instintiva, desejando recuperar a paixo perdida durante cinco semanas. Lanou-se nos braos de Jim e apertou-se com fora contra ele, enquanto os braos masculinos envolviam-na pela nuca e cintura, despertando todas as energias que dormitavam em seu ser.
Teri estremeceu de contentamento e foi se aconchegando a Jim como se estivesse necessitando de um ninho, um abrigo, do carinho perdido. As mos masculinas deslizavam, famintas, sobre as zonas ergenas do corpo dela, acariciando-a, demonstrando a excitao que o contato dos corpos provocava nele.
Apenas o apelo sexual urgente e abrupto parecia fazer parte da realidade, naquele momento.
Mas, para Jim, essa realidade era outra. Porque, to rapidamente como comeara, ele interrompeu o envolvimento.
 No v negar que sentimos uma atrao intensa um pelo outro. To intensa que  impossvel disfarar, querida.
Teri percebeu ento, pela primeira vez, que sentia uma falta enorme daquele homem. Seu corpo reagia com ardor. Era quase como se fosse um castigo pelo que dissera a ele, naquela sexta-feira, em seu aniversrio. Acusara-o de s desejar comida e sexo. E agora percebia que queria a mesma coisa.
Sentiu que estava to contente com a presena dele que seria capaz de pedir desculpas pelas palavras duras e antipticas ditas naquele dia.
 Sim,  verdade. Estamos no mesmo barco, Jim.
 Sempre estivemos no mesmo barco.
 Eu sei.
 Voc me quer tanto quanto a quero?
 Muito. Eu o desejo loucamente.
 Esse  um bom porto para atracarmos nosso barco. Poderemos fazer disso um timo incio. O comeo de uma verdadeira viagem.
Teri o fitou e percebeu que havia uma chama de desafio nos olhos azuis. Era como se tudo o que haviam passado, desde o incio, e a amarga separao, fossem uma s onda de amor e atrao.
Percebeu ento que cessara toda a sua resistncia, toda a sua oposio. A desconfiana e o amargor que alimentara dissiparam-se como que por encanto. Ento, num ato de entrega, disse:
 Desculpe se lhe dei a impresso de no valorizar tudo o que passamos.  Sorriu.  Como se fosse possvel esquecer nossa intimidade, nosso carinho, o amor e a ateno compartilhados... Tudo isso enche meu corao de alegria.
 Tambm senti meu corao se abrir para voc, e ofereci meu apoio quando soube da gravidez, lembra-se?
 Sei que ofereceu. Mesmo depois que falou em casamento, ainda senti que estava desconfiado, que temia assumir uma vida conjugal comigo. Era como se o que possussemos de mais valioso fosse nossa intensa vida sexual. Nada mais parecia real, Jim.
 Nunca esconda seus sentimentos, querida. No quero que fique confusa em relao a mim ou  nossa capacidade de ter um filho e educ-lo.
 Sei que voc estava sendo sincero, mas aquele foi um dia e tanto para mim. Imaginei que no fosse justo esperar qualquer coisa de sua parte, e senti que minha fantasia de ser me solteira fosse a nica realidade. Na verdade, no o escutei.
 No pensou que eu fosse capaz de assumir esse tipo de responsabilidade?
 Como eu poderia saber qual seria sua reao diante de um assunto to delicado quanto esse? A paternidade  um compromisso para toda a vida. Julguei que no fosse correto deix-lo na dvida, permitir que voc imaginasse que queria t-lo a meu lado s porque estou grvida. Suas condies haviam sido colocadas desde o incio.
 Mas foi voc quem disse que tudo mudara com a gravidez.
 Sei disso, mas passamos um ano convivendo de uma maneira to despretensiosa... Por que interromper tudo?
 No foi culpa sua ou minha. Na verdade, no existe culpa nisso. Se a gravidez aconteceu, devemos encar-la como um presente dos cus.
 O que quer dizer com isso?
 Voc falou que gostaria de receber mais de mim, no foi? Ento permita-me demonstrar que sou capaz disso. Deixe que eu a ajude a ter uma gravidez sem riscos. Voc precisa de mais ajuda nos negcios e em casa. No pode ficar estafada antes de o beb chegar. E preciso reprogramar as atividades do restaurante, colocar mais um funcionrio para ajud-la no dia-a-dia. Vou pagar o que for necessrio.
  muita generosidade de sua parte, Jim, mas o restaurante  meu...
 Ora, que teimosia! Estamos juntos, e no mesmo barco. Eu no me sentiria bem sabendo que algo poderia lhe acontecer. Venha comigo.  melhor mudar-se para minha casa. Ento esperaremos que chegue o momento adequado para o casamento.
 Mas...
 Sem "mas", garota teimosa.  Jim a fitou e por um instante seu corao disparou, sobressaltado, de preocupao.  Voc no parece muito bem. O que est sentindo? Est um pouco plida. Inspire fundo trs vezes e coloque-se em movimento.
 Para que eu deveria fazer isso?
 Porque ajuda o sangue a circular. Uma das consequncias da m circulao sangunea  a palidez, que costuma aparecer at o terceiro ms da gravidez.
 Mas no vou desmaiar, no se preocupe.
 Claro que eu me preocupo!  Ele sorriu.  Sabia que a palidez  comum no primeiro trimestre da gravidez porque h o excesso de progesterona que provoca um relaxamento nos vasos sanguneos? E isso faz com que o oxignio chegue com mais dificuldade ao crebro? Teri sentiu que os olhos azuis de Jim transmitiam uma preocupao sincera. Pela primeira vez experimentou uma gostosa sensao de proteo e carinho da parte dele.
 Eu no esperava que voc fosse fazer outra proposta de casamento. E, agora que fez, fiquei surpresa, sem saber como reagir ou o que responder.
 Mas essa  apenas uma consequncia lgica do fato de estarmos esperando um beb, no acha?
 Tem mesmo certeza de quer assim?
 Claro que tenho!  ele respondeu, enftico.  No vejo outra maneira de encaminhar as coisas. Voc v?
Os pensamentos de Teri comearam a se confundir, como se estivessem tentando traduzir suas emoes. Mas no havia linguagem capaz de expressar o que sentia naquele instante.
Sabia que era preciso encontrar uma resposta adequada para aquele quebra-cabea. Era preciso mostrar a Jim que sua deciso de assumir um casamento no tinha sido tomada em circunstncias normais. Caso ela no estivesse grvida, duvidava de que fosse ouvir aquele pedido to cedo. Ou algum dia, para ser honesta.
Tomou flego, arrumou os cabelos e escolheu com cuidado as palavras:
 Seria muito bom se fizssemos uma experincia conjugal.
 Uma experincia? O que chama de experincia conjugal? Fao um pedido de casamento e voc vem com a idia de fazer um teste primeiro?
 Mas voc me pediu em casamento numa situao anormal. Pode ser que, no fundo, no estejamos querendo viver juntos. H muita coisa que devemos esclarecer, antes de dar qualquer passo mais srio.
 Mas por que no quer pensar na possibilidade de ser mudar para minha casa?
 E por que motivo eu faria isso?
 H vrios, mas o mais direto  que minha casa tem trs quartos, e um deles poder servir ao beb, para guardar tudo o que ele vai usar. Alm disso, o quintal  muito maior. Voc pode se bronzear  vontade, l, e deixar o beb tomar ar fresco.
Esse era outro ponto que os dividia. Teri no tinha certeza quanto a como se sentiria na casa de Jim. Nem mesmo sabia como viver sem suas coisas por perto. Pensou que era melhor avaliar bem a situao. No adiantava ficar discutindo.
 Gostaria de conhecer sua casa antes de decidir se devo ou no mudar para l.
 timo.  claro que precisa conhecer a casa quanto antes, para tomar uma deciso mais segura.
Jim via a questo pelo lado prtico. Sabia que o momento exigia uma soluo rpida. Que Teri no devia ficar sozinha, com os riscos que toda gravidez implica.
 Por que nunca me convidou para visitar sua casa?  ela indagou, querendo saber algo que a deixara intrigada naquele ano de convivncia.
 Por uma boa razo, querida. E que voc tem um senso muito desenvolvido de seu prprio espao, e muita auto-suficincia. Sempre achei que fosse ficar constrangida em me acompanhar at l.
 Ah!  exclamou Teri, como se estivesse provando alguma suspeita.  Ento  como se me quisesse desde que eu no provocasse mudanas, no mexesse em nada nem fizesse alguma alterao em sua casa! Ou, melhor dizendo, em sua vida!
 Mas temos que nos acostumar um ao outro, certo?
 Sim, desde que isso seja um ponto de honra para mim.
Jim reagiu como se fosse explodir, mas conteve-se dando pequenos murros na palma da mo. Disfarou, fingindo estar massageando as palmas.
 Querida, por favor, entenda uma coisa. No sou do tipo que perde a cabea por qualquer motivo. Sei considerar as necessidades de outras pessoas, e gosto que reconheam as minhas necessidades. Acho que devemos pensar na mudana de casa como uma possi bilidade que vai melhorar suas condies, facilitar a gravidez.
 As coisas comeam a ficar claras. Concordo com voc.
A curiosidade de Teri em conhecer a moradia de Jim era enorme. Tinha a impresso de que ele queria proteger-se, com receio de sentir-se vulnervel, inseguro. Na certa, tudo continuaria como antes se no fosse o beb. Mas a existncia daquele pequeno ser tinha representado a queda de um muro.
 Quer caminhar trs quadras?  perguntou ele de maneira abrupta.  No, espere, posso chamar um txi!
 Nem pensar. Caminhar vai me fazer muito bem.
 Ento vamos  respondeu Jim, aguardando que Teri passasse  sua frente.
 Espere um pouco... Est preparado para ser pai de uma menina, no de um garoto?
  claro! Vou dar a meu filho, ou a minha filha, o mesmo carinho que eu gostaria que tivessem me dado quando criana.
Quando criana... Teri sorriu. Como teria sido a infncia de Jim?
 E a me do beb, o que diz?  ele prosseguiu.
Teri enfrentou o desafio devolvendo outro:
 Ela vai se ocupar bastante para que a criana tenha uma famlia saudvel, com referncias claras de como fazer as coisas funcionar direito. Por isso,  importante conhecer primeiro o terreno onde se pisa.
 Quer dar todas as cartas, no , Teri? At parece que no tenho nenhum direito sobre meu filho. Por que fala assim?
 No se trata disso  ela respondeu com calma, procurando no acirrar os nimos. Ainda mais depois de sentir-se agredida pela observao dura.  Sabe que eu no faria nada que fosse contra seus sentimentos de pai  afirmou, olhando-o nos olhos.
 Ento por que insiste em boicotar meus planos para o futuro? Acha que seus projetos so melhores do que os meus?
 No sei  respondeu ela.  S estou querendo ter mais clareza do que est nos acontecendo.  Suspirou antes de prosseguir:  Desculpe se isso o fere. S estou pedindo algum tempo.
 No acho. Toda pessoa tem um ponto de resistncia. No sou como um elstico, que voc pode ficar puxando como se tivesse toda a resistncia do mundo.  melhor definir o que quer, porque um dia nosso filho vai perguntar por que fez certas escolhas e por que deixou de faz-las.
 Talvez uma caminhada seja uma boa pedida para ns dois  comentou Teri, sem responder  provocao dele.
 Vamos, ento?
 Sim, vamos.
Ela caminhou com certa dificuldade no princpio, e em seguida ganhou mais ligeireza. Conhecer a casa de Jim lhe faria bem. Desse modo, poderia saber mais sobre ele, sua personalidade. Era algo concreto, em que podia confiar.
Mas tambm sentia que no estava de todo tranquila quanto ao que Jim viria a exigir dela.
Seria um bom marido? Afinal, havia coisas mais difceis do que ser me solteira.
No tinha, no entanto, por que desconfiar dele, refletiu ao olhar para os vasos preparados por Jim. Ele se encarregara do trabalho porque esse era o desejo de Teri. Um ato de doao simples e direto.
Mas exigir casamento era algo muito diferente. Podia levar a grandes sacrifcios. Talvez ambos devessem estar preparados para enfrentar dificuldades.
Ficara impressionada com a fora de vontade de Jim, com sua maneira decisiva de demonstrar o que queria. Admirava isso nele.
Comparado a seu ex-marido, Wayne, Jim era uma rocha, slido e cheio de estabilidade. E isso era algo muito valioso, que Teri apreciava. Uma vida compartilhada significava tambm poder assumir responsabilidades, e isso era algo que Jim tinha de sobra.
No entanto, para resolver se devia mesmo casar-se precisava esclarecer mais alguns pontos. E um desses pontos dizia respeito ao fato de ele no ser um "elstico", flexvel a ponto de amoldar-se s exigncias da vida.
Queria ter isso bem claro antes de pensar em casamento. Do contrrio, sabia que teria problemas. No combinava, nele, ser forte por fora e malevel por dentro. Sabia que o interior de Jim precisava de um corao amoroso e envolvente, que o alimentasse. Que lhe desse afeto, carinho e serenidade.
E Teri no sabia se era a pessoa mais indicada para isso.

CAPTULO XII

Jim no podia acreditar que estivesse pensando em casamento depois da experincia amarga com Serena. A ex-mulher ainda o importunava com frequncia. No sabia como se desvencilhar dela de uma vez por todas. Esperava que com Teri as coisas fossem totalmente diferentes.
No conseguia entender por que ela resistia a seu pedido de casamento. Ainda estaria apegada ao ex-marido? Apesar da decepo que sofrera com Wayne, ainda o amaria?
No tinha dvidas de que a resposta dela ao pedido de casamento seria positiva. Porque isso era o que melhor convinha a uma mulher inteligente e sensvel, como Teri demonstrava ser.
Ambos desceram a escada que dava acesso aos fundos do sobrado que abrigava o restaurante e dirigiram-se para a cozinha. Jim esperou que ela entrasse primeiro, e chegou a sentir seu leve perfume de rosas.
Quando os olhares se entrecruzaram, Teri parecia to vulnervel... Ele atribuiu isso ao fato de ela estar grvida. Acreditava que a gravidez era como um rio, que dividia em duas fases sua atrao por aquela mulher. Estava vivendo a segunda fase.
O que o preocupava era at onde poderiam chegar sem que suas prprias prioridades fossem levadas em conta...
Estava muito claro que Teri precisava dele. S mesmo estando cega para no ver isso. Uma rpida olhadela na desorganizao em que se encontrava o restaurante dava uma idia de quanto isso era verdade.
Ela parecia to fatigada que nem cuidara dos cabelos, naquele dia. Os fios pareciam despenteados e sem vio, aumentando a palidez do rosto bonito.
 Dylan j foi embora  comentou ela.  Devia ter me avisando antes de sair.
 Quando passei por aqui, ele parecia apressado. Provavelmente no queria aborrec-la, subindo para despedir-se.
Teri concordou com um gesto de cabea, mas no ficou convencida com a explicao.
 Espero que no tenha escutado nossa discusso. Acho que mais cedo ou mais tarde todos vo saber que estou grvida.
Jim pensou que, quanto mais cedo isso acontecesse, melhor para Teri. Afinal, a situao precisava ficar esclarecida de uma vez, sobretudo porque ela no teria foras para continuar a trabalhar como vinha fazendo at ento.
Jim percebeu que deveria conversar com Dylan antes que Teri o fizesse, a fim de transmitir-lhe algumas noes sobre administrao de negcios. Entendia que isso era o mesmo que fazer treinamento de pessoal, o que era muito mais compensador do que reclamar ou pedir socorro.
Teri esperou Jim sair para fechar a porta principal. Parecia ainda mais frgil vestida com aquela camisa folgada e o jeans largo. Estava com um aspecto fatigado, de quem perdera peso em vez de ganh-lo, pensou Jim.
Ela trancou a porta acionando as duas fechaduras de segurana, alm da principal. Ele a observou por trs, tentando imaginar os contornos das coxas e dos quadris por debaixo da roupa larga.
Em vo. Apenas vieram  sua memria as imagens do corpo de Teri quando estavam juntos. Cinco semanas e meia sem amor, pensou Jim, fazendo um trocadilho com o ttulo de um filme famoso, Nove semanas e meia de amor.
 Pronto. Podemos ir  disse Teri.
Do lado de fora do restaurante, Jim ainda se recordava da noite em que fora apresentado ao ex-marido de Teri. Estava saindo, e Wayne entrando, com um pequeno embrulho nas mos. Uma caixa de chocolates, com certeza, porque Charles tinha dito que o homem parecia estar cortejando a ex-esposa.
Que tipo de relacionamento manteriam desde a separao?
Teri era mesmo uma mulher muito ertica, e gostava do envolvimento sexual. Mas naquela noite, com certeza, no iria se entregar.
No dia seguinte ele estaria na Nova Zelndia, onde passaria trs semanas. Somando tudo, teriam nove semanas sem amor. Uma pena.
Na noite do encontro com o ex-marido, Teri cumprimentou Wayne como se estivesse se dirigindo a um velho amigo. Mas, se eram to bons amigos, por que no continuaram casados?
Bem, de qualquer maneira, isso j no tinha mais importncia. Acabara.
Teri reuniu as chaves, colocou-as no bolso e deu um pequeno sorriso para Jim.
 Podemos ir para sua casa?
 Podemos. Ah, e no caminho conte-me um pouco sobre Wayne.

CAPTULO XIII

Teri teve um sobressalto quando ouviu o nome de Wayne. Segundos antes, lamentara no ter trocado a roupa de jardinagem, porque poderia escolher algo para acompanhar o estilo esporte formal de Jim. Mas afastou esse pensamento quando o ouviu falar em Wayne.
 Desculpe, mas eu no entendo...  ela disse, como se quisesse evitar o assunto.
 No entende o qu?
 Por que falar de Wayne agora?
 No quer tocar nesse assunto por que ele a incomoda?  isso?
 Oh, claro que no.  que falar de Wayne agora vai perturbar nossa intimidade  respondeu Teri com calma.
 Certo, certo. Seu argumento parece fazer sentido  ele concordou, suspirando.  Tambm no fico tranquilo quando tenho que pensar em minha ex-mulher. Mas, talvez, o divrcio entre voc e Wayne tenha sido amigvel.
  verdade. Quero dizer... bem, nada sei quanto a voc e sua ex-mulher. Mas, em relao e Wayne e a mim, chegamos  concluso de que era melhor nos separar, enquanto um ainda tinha respeito pelo outro.
 So mesmo bastante civilizados, hein?  comentou Jim em um tom que no escondia um ligeiro sarcasmo.
Afinal, sentira uma pontada de cime ao escutar a observao final de Teri.
Ela sabia que Jim era mesmo um homem ciumento, capaz de expressar dessa maneira um ego dilacerado e at mesmo a frustrao sexual. Mas no se importava com o fato, porque isso jamais afetara o relacionamento que mantinham.
Lembrou-se dos culos de sol que ele lhe dera como presente de aniversrio, e a ateno que dedicara a ela. Gostava da maneira como Jim a tratava, e isso fazia com que se sentisse muito bem. Mas, naquele instante, percebeu que ele estava sendo inoportuno.
 Vamos nessa direo  Jim orientou, apontando para a rua Elizabeth.
No se preocupou em oferecer o brao ou a mo, como gesto de cortesia e carinho. Teri ento se perguntou quanto ele se importava com pequenos detalhes como esses.
 Voc quer voltar a viver com Wayne?
A pergunta foi feita  queima-roupa, e a surpreendeu. Era como se estivesse sendo questionada por uma pessoa estranha, que a conhecesse muito pouco. Ou quase nada. O que, na verdade, era o caso.
 No penso nisso nem como possibilidade remota. Por que decidiu me perguntar isso?
 Voc no se importa que ele a visite com frequncia  respondeu ele de maneira evasiva.
Teri sentiu que o momento vivido por Jim era muito especial, marcado por incertezas quanto a vir a se casar com ela. No queria ficar comparando os dois homens, como se fosse preciso escolher o tempo todo o melhor. Deveria explicar isso com jeito a Jim.
 Wayne aparece uma ou duas vezes por ano, para ver como estou. So visitas rpidas, para trocas de impresses, nada de muita conversa. Apenas quer saber como estou passando. To rpido quanto aparece, ele vai embora.
 Foi Wayne que decidiu romper com o compromisso de vocs?
Teri sentiu que a presso exercida por Jim estava alcanando o ponto mximo. Dessa vez, a pergunta teve o mesmo efeito de um choque eltrico. Por um momento, percebeu que ele estava agindo com certa agressividade, sem levar seus sentimentos em considerao.
 Francamente... O que isso importa?
 Vamos colocar as coisas em pratos limpos  ele respondeu, como se estivesse prestes a explodir de raiva.  Por que continua a conversar com um homem que foi seu marido e a abandonou?
Teri respirou fundo para tomar flego, diante da nova investida de Jim. Queria demonstrar que ele estava equivocado, mas sem fazer disso uma acusao. Tambm no desejava mostrar-se em uma posio de falsa submisso, por estar se preocupando em explicar assuntos ntimos de seu relacionamento com o ex-marido.
 Wayne e eu ramos vizinhos desde crianas. Ele vivia na minha casa, brincando com meus irmos. Crescemos juntos, saamos com a mesma turma e de vez em quando fazamos amor. Tnhamos acertado que um dia iramos nos casar. E fizemos isso. ramos muito imaturos para saber como funciona um casamento.
 Mas deviam se conhecer bem, no?  perguntou Jim.
 Em tudo h dois lados  comentou Teri.  Wayne era uma pessoa irresistvel, com um charme de quem entra para ganhar. E to simptico que se torna impossvel no gostar dele. Sempre acredita que resolver todos os problemas sem esforo.
 Isso no combinou com voc?
 E que sou uma pessoa mais preocupada com detalhes. Levo-os em conta para acertar tudo o que fao. Tento administrar cada coisa. Com Wayne, o dinheiro escorria pelos dedos como gua. Fazer oramento para prever o que gastar era to estranho, para ele, quanto um disco voador. Cheguei  concluso de que era melhor cuidar das finanas sozinha.
Jim reagiu bem  histria que ela contou, permanecendo atento o tempo todo. Percebeu que possua algo em comum com Teri, e sentiu-se mais aberto para a conversa.
 Quanto tempo passaram juntos?
 Trs anos  respondeu ela, animada pelo fato de Jim a estar ouvindo com ateno.  Wayne era guitarrista de uma banda, e esperava que um dia fizesse bastante sucesso, a ponto de ganhar muito dinheiro. Mas este sucesso nunca chegou, e as coisas foram ficando ruins para o grupo, que ento resolveu se dissolver.
 E quanto a voc? Como reagiu?
Ela sorriu.
 Segui meu caminho, fazendo o trabalho de garonete e depois administrando a cozinha de um clube local. Quando sugeria a Wayne assumir um trabalho regular, que nos desse segurana, ele reagia mal. Era como se isso fosse coloc-lo entre quatro paredes para sempre!
 A Wayne optou pela liberdade?
 Claro. Queria "aproveitar" a vida. Para mim, as coisas eram diferentes. Eu precisava me esforar muito para que nossa vida em comum pudesse dar certo, e acho que pressionava Wayne acima dos limites que ele era capaz de suportar.
Jim observou Teri em cada detalhe, com ar de quem concordava com sua postura.
 Entendo.
 Esse meu jeito faz de mim uma esposa recomendvel?
 Bem, posso garantir segurana e segurar as presses com tranquilidade. Acha que isso faz de mim um bom marido?
Teri e Jim se entreolharam com um ar de cumplicidade, como se as perguntas j estivessem respondidas havia muito tempo.
Ele sentiu orgulho em estender-lhe o brao, que Teri aceitou. Cruzaram a rua de abraados.
Uma clima amoroso brotou entre os dois, e Jim percebeu que ela precisava saber para onde estava indo ao se casar. No seria uma aventura, como a que marcara sua relao com Wayne.
Ao cruzar a rua, depararam com um grupo de homens, que se concentravam ali toda sexta-feira, na sada da cervejaria localizada dentro do Hotel Mares do Sul. Por sobre a algazarra, ouviam-se vozes alegres entoando msicas populares.
Jim sabia que, no raro, havia exploses de agressividade. Ento, num gesto sutil, trocou de posio com Teri, colocando-se entre ela e a turma da cervejaria. Ningum comentou nada sobre o casal que passava. Teri sentiu a forte proteo que Jim lhe oferecia e sentiu-se bem com isso.
Aps deixarem o local para trs, ele trocou de posio outra vez, deixando Teri do lado interno da calada. Era muito reconfortante passear na rua com Jim, pensou ela.
Foi somente depois de caminhar uma quadra alm da cervejaria que Teri lembrou-se de que no perguntara nada sobre o ex-casamento dele. Notou, na sequncia, que no partira dele nenhuma iniciativa de comentar o assunto.
 O que houve com seu primeiro casamento?  perguntou, sem rodeios.
Jim fez uma expresso engraada. Era como se tivesse sido indagado sobre algum assunto extico.
 Bem, voc me disse que Wayne no quis criar nenhum embarao em relao  separao. Pois com minha ex-mulher se deu exatamente o contrrio. Depois que se negou a cumprir as promessas que fizera, ela passou a criar problemas, decidida a no facilitar o processo do divrcio.
Teri comeou a perceber por que ele se mantinha to distante em relao ao assunto "casamento". Tinha receio de que promessas pudessem atrapalhar o relacionamento. Seu lema era no fazer nem receber promessas, de modo que jamais tivesse de se preocupar em v-las, ou no, devidamente cumpridas.
O comentrio crtico de Jim mostrou-lhe que ele ainda nutria um amargor profundo em relao  ex-esposa.
 Por que vocs se casaram?
 Ah! Essa foi uma atitude ingnua de minha parte. Serena tinha estilo e um ar de mulher chique. Casar com ela parecia parte da frmula de ganhar influncia e sucesso. Mas Serena abusou dessa frmula. Queria que eu vestisse o terno correto, comprasse a jia certa, a casa adequada, tirasse as frias da moda, e ainda frequentasse o crculo social que achava melhor.
Jim falou com cinismo da ex-esposa, mas era bvio que aprendera duras lies da convivncia com Serena.
Teri pensou nos culos que ganhara dele, com ares de produto chique, com grife. Sabia agora que Jim dava pouca importncia a esse aspecto, no casamento. Mas como seria conviver com uma pessoa cuja origem social era humilde? Uma pessoa como ela, que trabalhara num restaurante e s bem depois montara seu prprio negcio?
Jim no iria sentir que estava casado com algum de uma classe econmica menos favorecida? Como seria vista pelos amigos dele, quando fosse apresentada?
Sentiu uma agitao tomar conta de sua alma ao pensar em sua prpria famlia. O pai era construtor, e seus irmos tinham optado pelas carreiras de bombeiro e eletricista. Todos tinham seus negcios, que felizmente iam bem. Eram pessoas muito prticas, prestativas, e foram muito solidrias quando ela decidiu montar o restaurante Corao Feliz.
Ressentia-se do fato de Jim jamais haver se preocupado, durante todo aquele ano, em convid-la para um programa fora do apartamento ou do restaurante. Nunca se expusera em pblico a seu lado. Criara o hbito de frequentar o Corao Feliz e... sua cama. Em que promessas estaria pensando quando lhe propusera casamento?
 O que foi que sua ex-esposa prometeu e no cumpriu?  perguntou, curiosa.
Ele sorriu, bem-humorado.
 Depois de trs anos insistindo para que eu comprasse uma casa grande e luxuosa, disse-me que no queria filhos. Nenhum filho, nem meu nem de ningum.
Teri sentiu um forte aperto no corao. Como pudera se esquecer do beb? Estava se perdendo no ponto errado. Deixara de lado o fundamental da histria.
A importncia daquela gravidez, para Jim, ficou clara como a luz do meio-dia. Ela ia lhe dar o filho que sempre quisera ter, e que Serena lhe negara. Casaria com Teri para assegurar-se de que teria o beb.
 Chegamos!  exclamou Jim, conduzindo-a por um porto de ferro que dava acesso a um jardinzinho e a um sobrado de estilo colonial ingls.
Cheirava a casa chique. Teri parou diante da porta que Jim lhe abrira, com receio do passo que teria de dar. Aquilo mudaria completamente a sua vida.
Estaria preparada? Queria conviver com algum durante a vida toda? Quanto tempo teria para dedicar a si prpria? Alm disso, continuaria afastada das atividades dele, como acontecera at aquele momento?
 Teri?  chamou Jim.
Ao notar a ternura que havia naquela voz, ela perdeu o medo de avanar. Sua inibio cedeu lugar  franqueza.
 Estou sendo bem-vinda nesta casa, Jim? No vai me odiar por me ver aqui?

CAPTULO XIV

Teri estava assustada! Jim percebeu isso e tocou-lhe o rosto com carinho.
 Mas  claro que voc  muito bem-vinda! Estamos aqui para ver se gosta da casa, lembra-se?  disse ele, perguntando-se por que a companheira mostrava aquele ar de espanto.
Teri olhou em volta e percebeu com clareza o que, exatamente, estava em jogo naquele momento. Deu-se conta de que no era Jim ou a casa que a assustavam, mas seu medo.
Temia casar-se de novo. Temia deixar a vida que vinham levando, de amantes ocasionais.
 O que est deixando voc to perturbada, querida?
  que eu me sinto... como uma intrusa em sua casa  ela respondeu em tom de queixa.  Se voc me quisesse aqui antes, teria dito isso.
 No fique imaginando coisas, por favor. A verdade  que organizei minha vida, depois da separao, de modo a conseguir me virar sozinho.  Sorriu e a abraou.  Agora  hora de reorganizar tudo. Prefiro fazer isso com voc do que com qualquer outra mulher que conheo.
 Tem certeza absoluta disso?
 Tenho  Jim reafirmou o que dissera.
Estava decidido a incluir Teri em sua vida. Sentia que t-la conhecido fora como ter ganhado na loteria. Uma grande sorte.
Ela se mostrou surpreendida.
 Mas, at agora, fez questo, de deixar claro que s queria fazer amor comigo, lembra-se?
 Bem... na verdade afirmei isso no incio, e fui sincero. Mas fazer amor s veio confirmar que voc  um achado, uma jia preciosa, algum de quem no pretendo me afastar. Principalmente porque no faz de seu corpo uma arma contra o homem.
 Como assim, uma arma?  perguntou ela, incrdula.
 Voc no usa a sexualidade para fazer chantagens emocionais, exigncias descabidas. Isso  raro, sabe?
Foi o que fez com que eu desejasse continuar com ossos encontros. Essa nossa troca de erotismo  fundamental em minha vida. Se conseguirmos manter isso, serei um marido muito feliz!
Para Teri, aquela confisso pareceu muito franca. Gostou disso e ficou um pouco mais sossegada.
 Feliz...  repetiu, um tanto sonhadora.
  verdade, querida. Prometo, aqui e agora, que voc ir ter muito mais do que caixinhas de bombons.
Teri sorriu ao pensar nisso.
Jim sentiu-se confiante de que conseguiria derrubar o fantasma do ex-marido dela, uma figura que ainda a atormentava, impedindo-a de abrir-se para um novo casamento, uma nova vida. Passou o brao sobre os ombros de Teri, conduzindo-a, pelo corredor, para conhecer o restante da casa.
 Vai achar meus mveis um pouco... ahn... esparsos  comentou, lembrando-se que o apartamento era mobiliado com capricho.  Poder acrescentar as peas que quiser.
Teri no desejava trocar nada na casa de Jim. Se houvesse mudana, deveria acontecer por causa do beb. Apenas isso.
Sabia que, no fundo, queria fazer um teste. Enquanto no se sentisse  vontade naquele sobrado, seria incapaz de consider-lo um lar. Se isso, um dia, viesse a ocorrer, a sim, pensaria em transform-lo. Ao lado de Jim.

CAPTULO XV

Ao percorrer outros cmodos da casa de Jim, Teri surpreendeu-se com o cho do corredor. Enquanto se dirigia  cozinha, reparava como o piso verde estava limpo e brilhante.
 Tenho uma diarista que vem fazer limpeza uma vez por semana  explicou ele.   por isso que as coisas esto sempre em ordem, por aqui.
Era mesmo um custo muito pequeno, comparado ao gasto total aplicado na casa.
 Ela faz um timo servio  comentou Teri, tentando no passar a impresso de que achava as despesas para com o sobrado muito altas.
Sabia que Jim no estava preocupado com isso. Queria demonstrar hospitalidade, e assim foi apresentando cada detalhe da residncia.
Teri observou tudo. O papel de parede, os detalhes dos rodaps, a pintura do teto, os desenhos das cermicas do banheiro, as combinaes de cores.
 A ltima casa que aluguei estava pintada em tom pastel e creme  comentou ele, com desgosto.  Era impossvel evitar suj-la. Com esta, no h problema algum.
 Esse tom de azul-claro, meio metlico,  mesmo muito melhor  concordou Teri ao perceber que Jim queria sua opinio.
 , mas acho que este papel de parede segura muito p. E s passar o dedo para perceber isso.
 Ele tem muita classe  comentou Teri, impressionada.
 Mas  puro vinil. Sujou, lavou!  respondeu Jim, sorrindo.
A apreenso de Teri foi cedendo lugar a um sentimento mais tranquilo. Estava claro que Jim se preocupara principalmente com solues confortveis e prticas, no com arranjos luxuosos. Todas as coisas que mostrava tinham a ver com sua reao contra o estilo clssico, que sua ex-esposa tanto fazia questo de manter.
Ele usara couro para revestir sofs de trs lugares, namoradeiras e poltronas, alm dos assentos das cadeiras da sala de jantar.
Ao acompanh-lo, Teri deu uma rpida olhadela no canto da sala e viu uma enorme televiso cor de petrleo, no mnimo quatro vezes maior do que a sua.
Manifestou surpresa quanto aos efeitos da tela.
 Deve ser perfeito acompanhar esportes nesse aparelho!
 Gosta de esportes?  perguntou ele, sem conseguir esconder a surpresa.
A pergunta deixou Teri um pouco intimidada. Seria Jim um espectador muito exigente?
Deu-se conta de quo pouco se conheciam. O melhor a fazer no momento era deixar tudo muito claro, sem restries. Era preciso estabelecer as diferenas entre ambos.
 Muito!  respondeu.  Meus irmos mais velhos e meu pai gostam de todos os esportes. Futebol, tnis, beisebol... So at mesmo fanticos, a ponto de viver falando nesse assunto. Cresci acompanhando essas disputas. O resultado foi que me acostumei a isso. Gosto muito.
 Mas que maravilha!  exclamou Jim.  Vamos nos dar muito bem, tenho certeza.
Era a velha mania de achar que tudo poderia ter um desenrolar feliz, pensou Teri.
 Espero que sim.
 No tenho dvidas. Agora, venha ver minha mesa. Era um tampo retangular, de vidro. Sob ele havia duas pedras esculpidas, em forma de pantera. A primeira tinha a figura do animal de ponta-cabea, enquanto a outra o apresentava saltando para o alto.
 Mas que beleza! O escultor fez um trabalho muito caprichado.
 Concordo plenamente. Sabe, esta foi a nica pea do mobilirio da casa que fiz questo de escolher  explicou, apontando para o conjunto da sala de jantar.
A mesa e as oito cadeiras repousavam sobre um tapete arraiolo portugus, com frisos vermelhos e belos desenhos, com motivos florais, no centro.
 Adorei o tapete tambm. Ficou muito bom.
Teri sentiu um pouco de inveja da casa de Jim. Ter dinheiro para aplicar numa moradia nunca fizera parte de sua vida. A maioria de seus mveis, tanto no apartamento quanto no restaurante, era de segunda mo. Precisaria trabalhar anos sem conta se quisesse ganhar o suficiente para comprar mveis como os do sobrado de Jim.
 Gosta de se divertir?  perguntou, preocupada com a vida social do pai de seu filho.
 Gosto de relaxar. Mas no sei cozinhar.  Jim a fitou com um ar de cumplicidade.  Mas tenho certeza de que voc pode me dar algumas aulas nessa matria...
 Talvez. Vou pensar no assunto.
 A maneira como trata seus fregueses deixa todo mundo satisfeito.
 Oh, muito obrigada!
Entraram na cozinha. Teri sentiu-se como em um sonho. Piso de granito verde com rodaps de madeira, armrios e prateleiras revestidos de laminado. Um pouco alm, ficava uma lavanderia bem-equipada, um pequeno banheiro e um quarto extra, que Jim usava como escritrio.
 Em cima, h trs banheiros, mas mobiliei apenas um. Pode fazer o que quiser com os outros  comentou ele.
Teri percebeu que aquela sugesto, como todas as outras, indicavam que Jim queria t-la ali, morando naquela casa.
No entanto, decidiu nada comentar sobre isso. Pensava em algo diferente. Queria estar na cama, no quarto do andar superior, nos braos daquele homem, beijando-o, trocando emoes, sensaes, erotismo, sensualidade e paixo.
Seu corao bateu mais acelerado quando Jim indicou o caminho da escada, pela qual se alcanava o segundo piso. Sua excitao cresceu quando ps o p no primeiro degrau. Sentiu o corpo inteiro tomado de calor.
Jim a seguiu, mais atrs. Porm, ambos pararam quando ouviram a campainha tocar.
 Esperando algum?  Teri perguntou.
 No...
A campainha tocou de novo.
 Esto insistindo  ela voltou a falar.
  melhor verificar quem   Jim decidiu. Olhou com ternura para Teri.  Espere um minuto. J volto.
Ele respirou fundo e procurou acalmar a excitao antes de chegar  porta. No imaginava que pudesse ser to difcil ir de novo para cama com Teri. Havia oito semanas que no faziam amor, e isso o estava deixando doente.
Abriu a porta.
 Oh, ainda bem! Ainda bem que voc est aqui!  falou uma mulher, lanando-se ao pescoo dele.  No tenho para onde ir, ou a quem recorrer...
 Que desastre aconteceu com voc?  indagou Jim, olhando, espantado, para o hematoma no olho feminino.  Foi assaltada ou algo assim?
Teri no podia ver o rosto da recm-chegada, mas conseguiu perceber que usava uma tnica de seda e que era loira.
 Ele me bateu, Jim. Bateu, veja que tragdia! Ah! Por favor, o motorista do txi est esperando o pagamento.
Do lado de fora, uma voz masculina dirigiu-se a Jim:
 Amigo, no quero atrapalhar nada ou ningum, mas...  voc quem vai pagar a corrida para a senhora?  perguntou o chofer.
 Teri! Por favor, pode vir at aqui?  Jim chamou, virando-se na direo dela.  Pode lhe fazer companhia enquanto vou pagar o txi?
 Claro  respondeu Teri, apesar do olhar hostil que recebeu da mulher.
O que antes era um rosto bonito agora exibia um olho roxo e um corte na sobrancelha esquerda. O lbio estava inchado e ferido. A recm-chegada parecia muito machucada e chorava sem cessar.
To logo Jim retirou-se para pagar o taxista, a mulher tirou o cabelo que quase lhe encobria o rosto, ergueu a cabea, fez pose de modelo e passou a enfrentar Teri.
 Voc deve ser a arrumadeira. Ou ser a jardineira?
Teri controlou-se com muita dificuldade para no dar uma resposta  altura. Afinal, aquela poderia ser alguma amiga de Jim. Apenas indicou-lhe uma cadeira, onde a viu sentar-se.
 Grosseira!  exclamou a desconhecida, observando a outra dos ps  cabea.  Sabe que no preciso de voc?  disse, com voz petulante.  Pode ir embora, ouviu? Preciso ficar sozinha com Jim.
 Ele pode no querer ficar sozinho com voc  respondeu Teri, indignada com a reao daquela mulher.
 No vou discutir minha vida pessoal na frente de estranhos!  insistiu ela, em um tom histrico.
 At onde eu sei, a estranha aqui  voc  disse Teri friamente.
 Voc no sabe de nada. Jim e eu nos vemos h muitos anos.
 Ah! Sei como . Sempre que um homem lhe d uma surra, voc corre para esta casa, no  assim?
A mulher lanou um olhar furioso na direo dela, que no se intimidou com a ameaa.
 Engraado... Tenho uma intuio, que me diz que voc no veio para tomar caf nem para participar de algum concurso de simpatia  comentou a desconhecida.  Deve estar sem namorado, e acha que Jim pode ser uma conquista interessante. Por que no tem a decncia de ser mais discreta?
 Na verdade, estvamos indo para a cama quando a campainha tocou e nos interrompeu. Como v, o melhor seria que voc tivesse mais discrio.
 S mesmo em seus sonhos Jim desceria to baixo!  comentou a loira, com sarcasmo.
Aquilo abalou tanto Teri que quase a levou a perder a pacincia.
 Jim e eu estamos juntos h um ano  devolveu, procurando controlar o tom de voz.
 Pois fique sabendo que isso no significa nada. Na verdade, queridinha, est apenas se iludindo. No seja ingnua, por favor. Claro que no faz o estilo de Jim. No chega aos ps de algum como ele.
  mesmo? Eu no acho. E garanto que ele tambm no  respondeu Teri, com orgulho.
 Bem, talvez voc possa servir como um bom encosto, mas eu sou a mulher com quem se ele se casou.
Por um momento, Teri ficou embaralhada. Ento aquela era a ex-esposa de Jim? No fora  toa que ele ficara traumatizado com o casamento!
 Que eu saiba, vocs se divorciaram  respondeu, tentando entender por que Jim escolhera uma mulher como aquela para companheira.
 Posso corrigir esse erro, porque o conheo muito bem!  respondeu Serena, em tom de desafio.
 Sinto muito, mas voc chegou muito tarde.
 No seja tola. Posso fazer picadinho de voc!
 Se o fizer, estar eliminando tambm o filho de Jim. Porque, se quer saber, estou grvida.
 O qu?
 No entendeu? Serei me de um filho de Jim. Nada do que voc disser ou fizer vai mudar isso. Pode sentar-se e chorar, Serena, porque esta  a verdade. Ter de admiti-la.
 No!
O rosto da outra se contraiu. A surpresa furiosa estampada naquela expresso tornava-a ainda mais assustadora.
 Oh, e tem mais  continuou Teri, com uma tranquilidade que estava longe de sentir.  Jim e eu estvamos planejando nosso casamento quando voc chegou, invadindo a casa.
Serena levantou-se, para enfrentar Teri mais de perto.
 Voc sempre viver na minha sombra!  exclamou, com um brilho de dio no olhar.
Jim voltou para dentro naquele momento, e num segundo alcanou o corredor.
 Ela comentou como foi que apanhou?  perguntou a Teri.
 Foi uma briga de casal. Parece que algum chamado Edward bateu nela.
 Jim, por favor, no posso voltar para ele... Diga que vai me ajudar...
 Levante-se, Serena. O motorista do txi j foi pago para lev-la a qualquer lugar. Hospital, polcia, o local onde a pegou. Fora da minha casa e da minha vida. E no volte. Nunca mais, entendeu?
 Muito simptico de sua parte!  resmungou Serena, mais furiosa do que nunca.
Depois de destilar mais um pouco de seu veneno ao se despedir de Teri, saiu aos prantos.
Jim decidiu acompanhar a partida pela janela, para ter certeza de que a ex-esposa se fora.
 Essa ... ahn... minha ex-mulher  informou, completamente sem jeito.
 Eu sei. Ela me contou.
 Por favor, no deixe que nada do que Serena comentou a preocupe. E uma mulher infeliz, coitada.
A imagem que a outra deixara em Teri era a de uma pessoa desequilibrada, incapaz de julgar, esnobe e tomada por preconceitos.
 Muito mais do que isso, eu diria. Infeliz e disposta a destruir a vida de quem se aproximar dela.
 Tem toda razo. Sou testemunha disso.  Ele sorriu, procurando descontrair o ambiente.  Agora, que tal esquec-la? Temos muito a conversar, lembra-se? Por isso, proponho que voltemos ao nosso assunto.
Jim lhe dava toda a ateno do mundo, e Teri, ao perceber isso, sentiu que seu corao se aquecia de novo.
 Proposta aceita. Voc ia me mostrar o andar de cima, no  mesmo?
Era onde estava o quarto. E a cama.
A lembrana trouxe uma exploso de desejos. A vontade de t-lo a seu lado, com os corpos em contato ntimo, crescia  medida que iam subindo os degraus.
Incendiados, tomados pela paixo, alcanaram o andar superior.

CAPTULO XVI

Teri sentiu a acolhida amorosa de Jim desde o momento em que pisou no primeiro degrau da escada que levava aos quartos. Foi enlaada pela cintura enquanto uma das mos fortes tateava seus seios.
Percebeu que Jim repousava a cabea em suas costas e, com cuidado, a ia virando at poder beijar-lhe o pescoo, alcanar a orelha, a boca...
 Voc est bem agora?
Pela primeira vez Teri sentiu que a pergunta no se referia a seu estado fsico. Parecia mais uma preocupao quanto a seus sentimentos, algo prximo de uma ateno carinhosa.
 Estou muito bem. E, agora, mais ainda  confessou, correspondendo ao abrao de Jim.
 S para deixar as coisas mais claras do que esto, esta foi mais uma loucura de Serena. Para mim est acabado, to acabado quanto para voc e Wayne.
  bom ouvir isso...  respondeu ela, beijando-o na boca em seguida.
No queria pensar nem falar sobre o ex-marido, ou sobre Serena. No havia possibilidade de voltar ao passado. Sabiam apenas que havia sombras estacionadas no tempo, e que no regrediam nem evoluam. Ambos tinham essas sombras.
Teri queria um homem em quem pudesse se apoiar, e por quem pudesse ser apoiada. Jim queria algum que no o manipulasse.
Os dedos masculinos subiram pelo cabelo de Teri e com determinao massagearam-lhe nuca e cabea. O beijo no era abrasivo nem ardente, mas apenas suave, terno e lento.
 Eu a admiro muito, querida  confessou Jim, com voz emocionada.  E no me refiro apenas  sensualidade que nos envolve e nos une. Na verdade, estar com voc, em qualquer situao, me faz bem.
 Senti muito sua falta, sabe?  revelou ela, acon-chegando-se mais.
 Tambm senti. Pensava em voc, e em nosso filho, todos os dias.
 Nosso filho... Adoro dizer estas palavras.
 Eu tambm  concordou Jim, relaxando um pouco o abrao.  Estou apertando muito? Seus seios ainda esto sensveis?
Teri sorriu.
 Sim, mas no h problema. A roupa est apenas um pouco apertada. Acho que meus seios cresceram, nas ltimas semanas.
 Eu gostaria de dar uma olhadela...
Com um movimento lento, Jim tirou-lhe a camisa larga. Depois, admirou-lhe o busto cheio e acariciou-o lentamente.
 Eles so lindos...  disse em um tom carinhoso e sensual.
 Oh, Jim... Por favor, quero voc agora!
Um olhar foi o bastante para que entendessem quanto precisavam um do outro. Entraram no quarto e deitaram-se com cuidado na cama de casal.
A troca de carcias, a sensibilidade das peles, o toque dos corpos fizeram com que os dois mergulhassem num universo  parte. Um universo onde s havia sensaes e delcias. Como podiam ter ficado sem isso durante dois meses? Parecia inacreditvel...
Teri sentiu que aquele homem era seu. Apenas seu. E, para sentir isso com mais intensidade ainda, deslizou os dedos pelas costas largas. No havia mais espao para dvidas quanto ao futuro ou ao presente. As sombras do passado sumiram como por encanto, levadas para longe pela fora da paixo. Tudo o que havia, naquele momento, era uma estonteante sensao de completude, que se estendia por todo o seu ser.
No sabia se Jim compartilhava essa sensao. Mas, no instante em que se aproximavam do clmax, teve certeza de que partilhavam bem mais do que isso. Bem mais do que tudo que imaginara, desde o primeiro encontro.
Ambos pareciam mover-se numa nica frequncia, num nico ritmo, num nico sentimento. Algo muito intenso os unia, e no se tratava simplesmente de paixo, de atrao sexual, de erotismo, Era muito mais do que isso.
O que seria? Amor?
A luz natural que penetrava no quarto foi perdendo intensidade. A tarde j caa, l fora. Teri recostou a cabea no peito de Jim e observou atentamente o aposento que ocupavam.
Ele escolhera montar seu quarto ali, no comeo do corredor, no na sute, que ficava mais distante. Como sempre, seu senso prtico vinha em primeiro lugar. No centro do dormitrio instalara uma cama de casal, sobre um enorme tapete arraiolo. Dois grandes travesseiros tornavam-na mais confortvel. O banheiro ficava ao lado, e podia ser alcanado num pulo.
A colorao verde do quarto agradava a Teri, que pensou no beb. Se viesse uma menina, seria fcil dar ao aposento um toque feminino. Mas, se viesse um menino, nada precisaria ser alterado.
 Voc j tentou comer biscoitos antes de se levantar, pela manh?  perguntou Jim, interrompendo-lhe os pensamentos.
 Biscoitos?  Ela o fitou com ar intrigado.  De que est falando? Por que eu os comeria?
 Porque eles ajudam no funcionamento do estmago. Sabia que tomar limo puro tambm ajuda?
  mesmo? Ento est certo. Vou experimentar  respondeu ela, imaginando que comer biscoitos seria fcil.
Mas beber limo puro... nem pensar!
 Voc tem idia do tamanho do beb, agora?  ele indagou.
 No, no sei. E voc, sabe?
 Do tamanho de um morango!
 To pequenino?  perguntou Teri.
 Isso mesmo. Mas j desenvolveu todos os principais rgos. As mos e os ps esto crescendo. A cabea est quase se formando, o pescoo vai ficar ereto em poucos dias. Enfim,  um ser humano quase perfeito, mas bastante magrinho...
 Oh, mas que gracinha...
Ela sorriu. A descrio de Jim a ajudou a formar uma imagem mais real do beb.
 Voc precisa conhecer essas coisas, querida. As revistas e os livros especializados contam tudo isso. Direitinho!  comentou Jim.  Outra coisa, querida... j procurou um dentista?
 Dentista? Para qu?
 Bem, durante a gravidez as mulheres costumam ter carncia de clcio, e isso pode afetar as gengivas, levar  queda dos dentes. Voc tem notado se h sangramento quando os escova?
 No tenho visto nada assim  respondeu ela.
Jim tinha um jeito srio e interessado ao falar nessas coisas. Teri achava maravilhoso, e engraado. Mas no comentou nada, com receio de que ele pudesse ficar aborrecido.
 E sua dieta?  preciso deixar de lado o caf, o lcool, os frutos do mar e os queijos temperados. Ah! E salmo defumado, nem pensar!
 J cortei o caf. Nas ltimas semanas, eliminei quase todo o lcool e outras coisas mais pesadas. Na verdade, no estou conseguindo comer nada alm de omeletes, sopas o torradas.
 Verdade? Ento precisa mudar isso, e depressa. Do contrrio, vai acabar anmica.
 Concordo. Pode acontecer, sim, mas porque tenho colocado para fora metade daquilo que como.
 Ah, ? Isso quer dizer que precisamos cuidar desse enjo e elimin-lo.  afirmou ele, com ar determinado.  A partir de amanh, vou lhe dar biscoitos secos e limo. Assim, seu apetite poder melhorar.
Ah, no. Se fosse forada a tomar limo puro, jogaria o contedo do copo em cima dele.
 Acha que vai conseguir isso me mantendo nessa cama?
 Por que no? Este  o melhor lugar para voc, agora.
Teri evitou discutir o assunto naquele momento. Mas prometeu a si mesma que, mais tarde, iria ter uma sria conversa com Jim. Ao que tudo indicava, ele achava que mulheres grvidas tinham de repousar, e que no deviam continuar vivendo normalmente.
 Lembre-se de que tenho um restaurante para tocar. Se ficar na cama, irei  falncia!
 Podemos dar um jeito nisso. Voc no deve ficar trabalhando durante horas.  um esforo muito grande. Vou tirar folga amanh e encontrar algum que possa assumir uma parte das tarefas, de preferncia as mais pesadas.
 S as mais pesadas? Ento est bem. Porque quero continuar trabalhando, viu? At quando for possvel.
 Outra coisa, querida...
 Sim?
 Gostaria que voc preenchesse os formulrios, para que eu possa dar entrada com a papelada no cartrio? Precisamos pensar no nosso casamento.
 Mas... Jim!  ela reagiu de imediato, o corao apertado. Parecia estar pisando num terreno muito perigoso.  No posso me casar com voc. E to difcil assim entender isso?
 Por que no? Precisa de minha ajuda. Posso cuidar de voc e do beb, providenciar as compras no supermercado, o enxoval da criana...
Teri respirou fundo e percebeu que tinha de enfrentar a realidade.
 Voc quer se casar comigo apenas por causa de nosso filho, no  mesmo?
 Como pode ter tanta certeza disso? De qualquer maneira, o casamento tambm nos ajudaria.
 Pode ser. Mas ainda  muito cedo para eu me acostumar a essa idia.
 Ora, Teri!  reagiu ele, sem esconder uma ponta de irritao.  Como vou poder cuidar de voc e do nosso filho sem problemas se...
 Mas grvidas tm problemas  Teri o interrompeu.  Estou na nona semana. Se me casar com voc, e se por alguma razo perdermos o beb, vai se sentir preso ao relacionamento. Ser como uma armadilha, que o prender para sempre.
 Mas o que est dizendo? No acho que nosso casamento vai ser uma armadilha. Se fosse assim, jamais lhe faria esta proposta.
 Sei disso, Jim. Alis no acho uma boa idia apressarmos uma deciso sria como esta. No se esquea de que existr a possibilidade, mesmo bastante remota, de voc no ter sucesso no que mais quer o beb.
 Os riscos, numa gravidez, so maiores at o quarto ms. Depois, nuase inexistem. Oua, quero que se mude para c agora. No vamos colocar em risco nosso filho, no ?
 No seja teimoso, por favor. H coisas que esto acima dos nossos desejos.
 Mas no h nenhum motivo para no fazer aquilo que for melhor para a criana!  exclamou ele, agitado. Depois acalmou-se e disse, tocando-lhe o ventre:  No se preocupe, Jnior, seu pai vai tomar conta da situao. E sua me vai fazer tudo o que eu disser, porque agora sou eu quem manda em seu bem-estar.
Apesar de se manter reservada, Teri sorriu.
 Acho que vamos ter que enfrentar um ditador...
Jim devolveu o sorriso ao ouvir a provocao.
 Est bem. Vou deixar que voc escolha os programas que iremos ver na televiso.
 Ah! Isso no ser problema, no? Ns dois gostamos de esportes!
 No quero reclamaes sobre filmes romnticos.
 Mas gosto de filmes de aventura!
 timo. Eu tambm.
 Ah! Ento tudo ser como voc quiser!  provocou Teri.
 Nem tudo. Vou deixar que voc faa comigo o que quiser. Meu corpo  seu. Pode usar e abusar dele. Pode procurar o prazer que quiser.
Antes que Teri conseguisse responder, Jim beijou-a na boca.
Planejava tomar conta dela e do beb. No os deixaria sozinhos. Queria Teri a seu lado, em sua casa, em sua cama. Mais do que isso, desejava aquela mulher... em sua vida.

CAPTULO XVII

Dois meses e meio depois...

A me de Dylan preparava uma grande salada  italiana, com pequenos pedaos de bacon e tomate seco, quando Teri entrou na cozinha.
 Oh, ol querida! No esperava v-la por aqui. O que houve? No  hoje o exame do ultra-som?
 Sim, ser s duas da tarde. Mas no aguentei ficar sem fazer nada at l, e vim ver vocs.
 Essa fase da gravidez deixa a gente um pouco nervosa, no acha?  perguntou a senhora, cuja experincia como me era mais do que comprovada.
  verdade  respondeu Teri, sem desejar atribuir a isso uma importncia muito grande.  Jim est to radiante com a expectativa da vinda do beb, Fay! Acho que eu morreria se alguma coisa desse errada.
 Mas no h com o que se preocupar, querida. Sua gravidez vai indo muito bem. E voc est mais animada desde que os enjos da manh cessaram.
 Ah! Que luta para isso acontecer... Voc nem imagina!  exclamou Teri ao lembrar da quantidade de limo puro que tomava para aguentar um pequeno enjo insistente, que ainda atacava seu estmago ao acordar.
Nunca mais iria querer ver limo  sua frente!, pensou, aborrecida.
Sentou-se para continuar a conversa com Fay. Num dos cantos da cozinha do restaurante, arrumara uma mesinha e uma cadeira especial para grvidas, e aquele passou a ser seu local preferido. Quando podia acompanhar os trabalhos, sentava-se l e conversava com Dylan, Mike, Charles e Fay, que fora contratada por Jim especialmente para substituir o cozinheiro. Isso porque ele foi promovido, e ficou encarregado dos trabalhos de cardpio, compras, suprimentos e pagamentos.
 Pelo menos ningum pode dizer que no estou ganhando peso agora, Fay.
A senhora sorriu, achando muito engraado tudo o que Jim fazia para envolver-se com a gravidez da mulher. Vinha instruindo Dylan e Fay, com regularidade, sobre as etapas da maternidade, para que cuidassem bem dos alimentos que Teri deveria ingerir.
Tambm indicava o que lhe era permitido fazer, o que no era, quais os alimentos mais importantes para aquela fase da vida do beb, como mudar as combinaes entre os pratos, corno equilibrar quantidades certas de nutrientes, protenas, vitaminas, minerais... Jim acabou ganhando at um apelido, por causa da constante superviso que exercia: Grande Pai.
Fay tambm fazia sua parte na campanha orquestrada para que Teri vivesse uma gestao adequada.  C est, querida. Isso vai ajudar  comentou a boa senhora, passando a Teri uma terrina com dois ovos cozidos e sal.
A me de Dylan era uma pessoa muito simptica, beirando os sessenta anos. Ficara viva havia alguns anos. Procurava emprego quando Jim comentou com o cozinheiro sobre seus planos de mudar a rotina de Teri, de diminuir sua participao no dia-a-dia do restaurante.
Era a pessoa certa para trabalhar no Corao Feliz. Cozinhava to bem, ou melhor, do que o filho, e assim podiam somar esforos. Tinha grande interesse em aprender novos pratos e em variar sabores.
Com a entrada de Fay no restaurante, tudo entrou nos eixos. Dylan passou a cuidar do cardpio dirio e das compras, Charles continuou com suas atividades no bar e Mike permaneceu na cozinha, dividindo o caixa com Dylan.
Teri nunca tivera uma vida to fcil. No havia com o que se preocupar, exceto manter-se saudvel o suficiente para ajudar no desenvolvimento do beb.
Quando Dylan entrou, e viu Teri por ali, ficou surpreso.
 Ei, garota! O que aconteceu com a ultra-sonografia que voc ia fazer?
 Ainda no fiz, Dylan.
 E o que foi que veio buscar aqui? Trabalho?  perguntou ele, provocador.
 Em primeiro lugar, no estou invlida. Posso muito bem trabalhar. Mas tambm estou preocupada com a sade de meu filho.
 Menino ou menina?  indagou Dylan.  Apostei com Charles que seria menino, e ele,  claro, acha que vai ser menina.
 Pois acredito que vocs tero de esperar at o nascimento para ter certeza. Acho que Jim no vai querer saber o sexo do beb  comentou ela, sorrindo.
 Mas como esperam fazer o enxoval se no conhecem o mais importante?
 Ainda  cedo, Dylan. Por ora, quero saber se o beb est bem. E s!
 Mas no custa dar uma olhadela e verificar se  menino ou menina, no acha? A, vocs j poderiam procurar um nome para o beb!  exclamou ele, com entusiasmo.
 Mas  que Jim pode no querer... conhecer o sexo do beb  Dylan completou, sorrindo.  Pois aposto no contrrio. Com certeza ele vai querer saber se  menino ou menina. Desde j!
 Talvez...  respondeu Teri de maneira um pouco vaga.
Esse era o motivo pelo qual estava to insegura em relao  ultra-sonografia. Jim poderia querer saber o sexo do beb, enquanto ela preferia esperar mais alguns meses. Achava que ele ficaria desapontado a partir do momento em que soubesse que se tratava de uma menina... Se  que era mesmo uma garotinha.
O local do exame no ficava longe dali. Situava-se num bairro vizinho. Jim combinara de estar l na hora marcada, esperando por Teri.
Quando ela chegou, encontrou-o na frente do prdio, tenso, caminhando de um lado para outro. Mas ao v-la sua expresso se iluminou, mostrando contentamento e satisfao.
Teri viu-se tomada por uma emoo que a deixou perturbada. Sentiu que estava prestes a desfalecer. Quando Jim aproximou-se, resolveu segurar-se nele para no cair.
Amava aquele homem com toda a intensidade de sua alma. Mas no era apenas uma questo de qumica ou de atrao sexual. Tivera momentos maravilhosos, de forte desejo fsico, como jamais acontecera em sua vida. Mas agora era diferente.
Jim parecia exalar uma fora boa, um magnetismo que, em contato com o dela, provocava um frtil e poderoso campo para o amor.
 H qualquer coisa extraordinria em voc, querida  comentou ele, sorrindo.  Eu estava agora mesmo pensando em como o nome do restaurante  adequado para este nosso momento. Estamos, definitivamente, com o corao feliz. Aposto como voc ainda no tinha relacionado as duas coisas!
 Oh, sim, j tinha  respondeu Teri.  Na verdade, desde o primeiro dia, quando soube da gravidez. Relacionei no mesmo momento o nome do restaurante ao aparecimento do beb.
 timo! E ento, vamos para o exame de ultra-som?  indagou ele, oferecendo-lhe o brao.
Mas, em vez de caminhar, permaneceu em frente ao centro mdico, como se fosse continuar a conversar.
 Algo errado, Jim?
 Ao contrrio. Estou pensando que seria um espetculo ver a imagem dele, no acha? J imaginou?  quase como uma foto de verdade! A poderamos ver como ele est, qual sua posio...
 Espere um pouco! Sabe muito bem que pode no ser "ele"  Teri corrigiu com calma.
 Sim, eu sei  ele respondeu, meio distrado.
Teri no se sentia muito  vontade com aquela situao. E se Jim pretendesse saber o sexo do beb?
Apressaram-se na direo do centro mdico. Ao chegar ao laboratrio de ultra-sonografia, Teri foi recebida pelo tcnico.
 O gel que ser aplicado sobre a barriga  frio, mas vai melhorar a imagem  explicou o rapaz.
Ela achou desconfortvel deitar-se com a barriga virada para cima, com Jim a seu lado, todo sorridente e sem poder fazer nada para ajudar.
Teve um leve estremecimento ao sentir o gel frio em contato com a pele, e, na sequncia, experimentou o contato com a sonda do ultra-som.
 Antes de continuar, preciso saber se vocs querem conhecer o sexo do beb. Se preferirem a surpresa, vou evitar certas reas, e vocs no ficaro sabendo se  menino ou menina.
 O que prefere, querida?  indagou Jim.
A princpio, ele pensou que seria melhor saber o sexo do beb. Mas, por outro lado, precisava confirmar se Teri queria mesmo fazer essa descoberta agora.
Assim que notou que ela estava indecisa, percebeu que a soluo para o problema acabaria ficando sob sua responsabilidade.
 Oh, Jim... Por favor, decida voc.
 Hum...  ele reagiu, como se estivesse preso num beco sem sada e precisasse descobrir por onde escapar.
 Jim?
 Est bem, ento. Deixe que seja uma surpresa  ele finalmente disse, ao fit-la.  Sempre tive a fantasia de ver o mdico se aproximar com meu filho no colo e me informar: "Sr. Kingston, o senhor  pai de..." E s ento eu ficaria conhecendo o sexo da criana.
Teri mal pde acreditar naquela resposta. Riu, sentindo-se aliviada. Isso queria dizer que Jim no se importava mesmo com o sexo do beb. Que lhe daria as boas-vindas, fosse garoto ou garota!
 Isso mesmo  ela afirmou, feliz.  No queremos saber agora.
 Muito bem. Vou apagar a luz e a imagem ir aparecer na tela. Observem os detalhes que vou explicar.
O monitor estava aos ps da cama. Jim esfregou as mos, de pura excitao, enquanto Teri prendia a respirao, rezando para que tudo estivesse bem com a criana.
Logo em seguida a tela se iluminou e... l estava o beb! O seu beb! Os bracinhos, o pescoo, a cabea.
Teri emocionou-se a ponto de quase chorar. Que coisa mais fantstica ver uma criana no tero da me!, pensou.
O tcnico moveu o basto sensor, aumentando a resoluo. Ento apareceram o corao e a espinha dorsal.
Teri pde ver uma pessoa bem pequenina, o contorno do rosto, das orelhas e da boca. Surpresa, constatou que o beb estava chupando o polegar, num gesto inconfundvel.
 A criana est perfeita para dezoito semanas. Nas dezoito semanas seguintes, se quiserem fazer mais exames de ultra-som, basta agendar.
Palavras mgicas para Teri. Logo em seguida, ela viu que o beb tirava o polegar da boca e deixava que a mo aparecesse inteira no vdeo.
 Veja isso, querida! Ele est acenando para ns! Sabe que estamos aqui!
Teri no sabia no que acreditar, mas lgrimas rolaram de seus olhos. Era uma emoo sem tamanho imaginar que o beb poderia estar se comunicando com os pais.
 Ele no  fantstico?  Jim indagou, sem se dar conta de que atribua o sexo masculino ao beb.
Teri no ligou. Continuou emocionada, partilhando aquele momento com seu filho.
Essa experincia se estendeu para depois que ambos saram do consultrio. Caminhando pela rua, os dois passaram a trocar impresses sobre o que tinham visto na tela.
 Jamais vou conseguir agradecer voc pela criana que est trazendo ao mundo, querida  disse Jim, emocionado.  Nosso filho  muito especial.
 Sim, muito...
 Voc deve casar comigo.  a coisa certa a fazer. Ns geramos esse beb. Somos o pai e a me dele.
 Ainda no  hora, Jim.
 Acho que . No percebe? Somos uma famlia! Ns trs!
 Espere o beb nascer em segurana. A sim, seremos uma famlia.
 Que teimosia!
 Quando ele nascer, e estiver conosco, ento... Bem, a, se ainda me quiser como sua esposa, aceitarei me casar com voc.
 Nada disso  insistiu Jim.  Pretendo me casar antes que o beb nasa. Se no fizermos isso, ele ser um filho ilegtimo.
 Mas esse no  mais um estigma em nossa sociedade, Jim.
 Tem sido feliz comigo, no?  ele prosseguiu, como se no a tivesse escutado.  Temos compartilhado nossas vidas. Gosto de chegar em casa e encontr-la l.
 O beb nos d um objetivo comum  lembrou Teri.
 Tambm acho. Mas...
Sem poder suportar mais a conversa, ela levantou o dedo indicador e pousou-o nos lbios de Jim, calando-o.
 Vamos com calma, por favor. No apresse as coisas. Tudo tem sua hora, seu lugar.

CAPTULO XVIII

Jim decidiu voltar ao escritrio, mas evitou trabalhar. Preferiu ficar em frente  tela do computador, olhando as imagens da ultra-sonografia, observando todos os detalhes dos movimentos do beb.
Postou-se diante do aparelho, para apreciar o feto se movendo ora com lentido, ora mais rapidamente, ora mostrando os ps, ora as mos... Estava completamente enlevado.
Mas, quando lembrou da resistncia de Teri ao casamento, sentiu um gosto amargo na boca. Isso o deixava extremamente contrariado.
O que fazer para que ela mudasse de idia? Para que aceitasse sua proposta, e se casasse antes do nascimento do beb?
Sem conseguir descobrir a resposta, Jim decidiu que iria insistir nesse ponto. Em vez de ficar preocupado com questes tpicas do mundo das mulheres, como providenciar o enxoval para a criana, deveria tomar outra atitude.
Como pedir assistncia  secretria.
Por isso, mais que depressa apertou o boto do intercomunicador.
 Mavis? Preciso de voc!
 Agora?
 Imediatamente!
 Estarei a em dois segundos.
Ele se levantou enquanto esperava a assistente, pensando que ao menos ali, no escritrio, podia dar todas as ordens. Ningum as discutia.
Caminhou com impacincia em volta da mesa at encostar-se na beirada, perguntando-se que tipo de soluo seria a mais adequada ao caso. Prometeu a si mesmo que permaneceria calmo, relaxado, no importavam os erros e os acertos dos conselhos que Mavis lhe desse.
Respirou mais aliviado ao lembrar-se que, da primeira vez, as sugestes da secretria haviam se revelado timas. Ela acertou em cheio, e o ajudou a lidar com as reaes inesperadas de Teri, nas primeiras semanas da gravidez.
Uma batida  porta o fez voltar  realidade.
 Jim? Posso entrar?
 Claro!
Ela se acomodou na cadeira em frente  escrivaninha, o bloco de notas  mo.
 Estou pronta.
 Oh, Mavis... No se trata de nenhum assunto profissional. Eu gostaria de lhe falar sobre um problema... muito pessoal.
A secretria sorriu. Podia at adivinhar de que se tratava.
 Pode falar. Estou  sua disposio.
 Sabe que Teri est morando comigo, no ?
 Sim, eu sei  Mavis concordou.
Havia sido avisada, pelo patro, para no estanhar se ligasse para a casa dele e Teri atendesse.
 Isso foi h dois meses e meio  comentou Jim, e em seguida decidiu dar nfase ao perodo j transcorrido:  Dois meses e meio, Mavis!
A secretria assentiu com um gesto de cabea. Conteve o riso ao perceber a agitao do chefe. Parecia um menino, sem saber como lidar com a primeira namorada.
  realmente um longo tempo...  zombou.
 Ah! Voc no est me levando a srio!
 Claro que estou. Continue  Mavis o encorajou, perguntando-se onde ele queria chegar.
 Tenho dado toda a assistncia a ela, ouvido suas queixas, opinies, atendido suas necessidades e acompanhado a gestao. Facilitei-lhe a vida, para no v-la trabalhando tanto no restaurante. Agi de acordo com seus conselhos, no acha?
A primeira reao de Mavis foi olhar para Jim e no dizer uma palavra. Apenas meneou a cabea, concordando com seu interlocutor. Mas, em seguida, no conseguiu evitar um comentrio:
 Voc parece estar fazendo tudo direitinho.
 E estou mesmo. Teri e eu estamos vivendo muito bem. Acho que voc precisa saber isso. No temos aquelas disputas chatas que a maioria dos casais tem. Gostamos at mesmo dos mesmos programas de televiso, e no temos problemas na... ahn... na cama. Estamos nos dando bem em tudo, entende?
 Entendo. Juntos, vocs tm uma vida feliz.
 Isso mesmo  Jim concordou, enftico.
 E amam um ao outro, sem dvida.
Jim arrepiou-se ao pensar nisso. Ouvira um sem-nmero de juras de amor da ex-mulher, e todas eram completamente falsas. Serena usava essas e outras declaraes para afastar-se dele e criar uma barreira dentro do casamento. Na verdade, com isso apenas queria manipul-lo da maneira mais dissimulada possvel.
 E, no tenha dvidas quanto a isso, Mavis  falou ele com convico.
Jim parecia pisar em ovos para chegar ao ponto que o preocupava. Por isso, a assistente resolveu encoraj-lo mais uma vez.
 timo! Ento, qual  o problema?
Jim a fitou, pensativo.
 Tambm no sei. Por tudo o que estamos vivendo, no faz sentido o que aconteceu ontem  queixou-se.  Teri no quer mesmo se casar comigo. H dois meses e meio ela vem fugindo dessa deciso. A nica coisa que sabe me dizer  que precisamos esperar at o nascimento do beb!
 E por que ela diz isso?  indagou Mavis, procurando obter maiores detalhes antes de externar sua opinio.
 Argumenta que quer ter o filho primeiro, e s depois pensar em casamento. Mas desse jeito ser muito tarde!
 Muito tarde? Mas muito tarde para qu?
 No percebe? A criana nascer sem o amparo de uma unio legal. Perante a lei, ser ilegtima! No quero que Teri v para a maternidade com os documentos de solteira, como se no tivesse nada a ver comigo!
Mavis ficou pensativa por alguns segundos.
 Pode haver um bom motivo para isso  respondeu.  J pensou no assunto?
 J, e no vi nenhum "bom motivo" nos ltimos dois meses e meio. Estou totalmente confuso. No sei o que pensar, o que fazer.
 Sabe, Jim  ela comeou, com jeitinho ,  que certas maneiras de manifestar o amor pesam mais do que outras. Voc conheceu a famlia de Teri quando passaram a morar juntos?
 Claro que no  ele respondeu, sem entender onde a secretria queria chegar.  O que isso tem a ver com nosso relacionamento? Somos pessoas independentes, adultas. Um casal que se gosta. Por que dependeramos dos nossos pais ou irmos?
 Voc quer se casar com ela, certo?
 Sim, certo.
 Mas veja s que situao. Nenhum dos dois conhece os pais ou irmos do outro!
 De minha parte, s h meu pai, com sua segunda famlia. No costumo v-los muito, em especial depois que se mudaram para o litoral norte  comentou Jim, um tanto distrado.  Alm disso, estamos constituindo nossa prpria famlia. No precisamos ficar tomando outras como modelo.
  parte de seu plano deixar os parentes de fora?
 Oh, Mavis! No vejo como isso pode pesar na deciso dela de no se casar agora  respondeu Jim, j chegando ao limite de sua impacincia.  Teri e eu j passamos pela novela de casamentos e separaes, somos divorciados e sabemos que basta uma cerimnia simples num cartrio para oficializar tudo.
 Vamos ver se consegui entender bem  continuou Mavis, com calma.  Tudo o que quer  uma pedao de papel, com assinatura oficial, dizendo que so casados. A poder oferecer uma paternidade, digamos assim, "oficial"  criana. Entendi errado?
 No! Oh, quer dizer... acho que entendeu certo.  isso mesmo. Mas  mais do que isso, tambm. E um compromisso dos pais para com o futuro do beb. E Teri simplesmente se recusa a compreender isso!
 Voc j pensou que esse motivo, que o preocupa tanto, talvez no seja nem um pouco importante para ela?
 Pois deveria ser!
 No, no "deveria". As pessoas so diferentes, Jim. Tm expectativas, razes e pontos de vista diferentes. Voc no pode obrigar Teri a pensar de acordo com o seu modo de ver as coisas.
 E da? Ela tambm no procura observar a questo de outra perspectiva que no seja a sua.
 No acha que est tudo errado?
 O qu est errado?
 Vocs dois, ora! No seria melhor se um procurasse entender os motivos do outro?
 Mas...
 Coloque-se por um momento no lugar de Teri  Mavis sugeriu, sorridente.  E ento talvez compreenda por que ela resiste tanto  idia de casar-se com voc agora.
 E compreender vai me levar a algum lugar?
 Sim, se voc quiser. Mas, de todo modo, j  um primeiro passo.

CAPTULO XIX

Teri sabia que j no era possvel esconder da famlia a notcia de sua gravidez. Mas queria ter certeza de que as relaes com Jim estavam melhorando para s depois falar sobre o beb aos pais e, depois, aos irmos.
Por dois meses tinha evitado visit-los. Dera as desculpas de sempre, alegara compromissos com seus negcios, no restaurante...
Mas agora o arsenal de motivos j tinha se esgotado.
Seus pais estavam morando a apenas duas horas da cidade, e isso tornava ainda mais injustificvel o fato de ela ainda no ter ido visit-los.
Sua dvida era sobre se devia ou no envolver Jim nessa histria.
Para sua surpresa, porm, ele mesmo levantou o assunto, na hora do jantar.
 Conversei com meu pai hoje, querida  contou, lanando-lhe um sorriso radiante, de quem tinha uma boa notcia.  Disse-lhe que ia ser av. E,  claro, ele quer muito conhec-la. Vive no litoral norte com a segunda mulher e com meus dois meio-irmos. Poderamos ir at l neste domingo, se voc no se opuser a isso.
Perplexa, Teri considerou o fato de que aquela era a primeira vez que ouvia falar nos familiares de Jim. At aquele momento, s sabia que no havia me nem irms. De resto, mais nada, pois ele pouco lhe revelara sobre o assunto.
O mesmo se aplicava a ela. Sobre sua famlia, Jim sabia apenas que a me tinha falecido quando Teri completara oito anos, e que o pai, que trabalhava como contador, casara-se de novo dois anos depois.
 Costumo visit-los na Pscoa ou no Natal  prosseguiu Jim, animado.  Mas os garotos so muito pequenos para ganhar presentes feitos de chocolate. Por isso, prefiro ir no final de ano.  Fez uma pausa, meio preocupado com o silncio dela.  Ficou aborrecida por eu ter contado sobre a gravidez?
Teri sorriu lentamente.
 Claro que no. Na verdade, estou curiosa para conhec-los. E muito bom que voc tenha contato com a segunda famlia de seu pai. Isso no  muito comum, quando se  muito mais velho do que os meio-irmos.
Ele tambm sorriu, aliviado por ver que sua iniciativa no fora objeto de crticas.
 Como  sua famlia, querida?  indagou, sem rodeios.  Tudo o que sei  que tem dois irmos. No conheo mais nada sobre seus parentes. Voc nunca me contou.
 Bem,  que...
Com receio de que a conversa tomasse um rumo inesperado, levando a algum desentendimento, ele a interrompeu rapidamente:
 Eu gostaria muito de conhec-los. E de me apresentar como seu marido, pai de seu filho.
Teri arregalou os olhos, entre surpresa e satisfeita.
 Seria uma tima surpresa para eles. Ainda no sabem que estou grvida. No tive coragem de contar.
 No teve coragem?  ele repetiu, colocando a mo sobre o brao feminino, em sinal de apoio.
 Isso mesmo. Pode parecer bobagem, mas  a mais pura verdade  ela respondeu, sentindo-se tocada pela poderosa energia que vinha do corpo de Jim.
 No acho bobagem. Acho um receio natural.  Sorriu.  Estou disposto a lhe dar todo o apoio do mundo, se quiser. Podemos ir ver seu pais e seus irmos no momento em que desejar. Basta escolher o dia, e estaremos l sem falta.
 Oh, Jim!
Teri irrompeu em soluos, e no conseguiu responder. As lgrimas comearam a rolar em suas faces, enquanto Jim a fitava, espantado com aquela reao. Passou o brao em seu ombro e esperou que o acesso de choro passasse.
 Meus pais... Oh, Jim, eles so muito antiquados! Meus irmos so casados com as mesmas esposas h muitos anos. Nunca entenderam muito bem por que Wayne e eu nos divorciamos.
No havia o mnimo sinal de contrariedade no rosto de Jim.
 Quanto mais cedo eles virem que nos damos bem juntos, melhor para ns, no acha?
 Acho que sim. Mas voc jura que no vai ficar chateado se alguma coisa sair errada?  indagou Teri, depois de enxugar as lgrimas.  Meu pai e meus irmos... bem, so capazes de no aceitar o que est ocorrendo. Meu pai  conhecido pela falta de tato.
 No se preocupe, meu anjo, posso lidar muito bem com essas situaes. Eles no vo dar as costas para o nosso beb.
Nosso beb! Ora, Jim s pensava no beb. O tempo todo, s havia espao para as preocupaes com a criana. E quanto a Teri? Era a grande esquecida naquela histria toda!
Ainda assim, no tinha por que reclamar de Jim.
Estava sendo bom para com ela, e administrava tudo com grande generosidade.
Teri amava aquele homem. Mas era penoso constatar que Jim no a amava. E era muito difcil alterar isso. Tudo, mas tudo mesmo, parecia estar sendo feito apenas para o beb.
No domingo seguinte, foram de carro para o litoral norte, visitar a famlia de Jim. O pai dele, Alex Kingston, acolheu bem Teri e a deixou  vontade. Donna, sua esposa, tinha muita energia, adorava conversar e no deixava passar nenhum assunto despercebido.
Confessou que estava muito feliz com a mudana na vida de Jim. A ex-esposa, comentou sem cerimnia, tinha uma personalidade que no combinava nem um pouco com a dele.
 Era muito fria e calculista, alm de bastante exigente  revelou Donna.  E claro que Jim est muito mais feliz com voc, Teri. E que notcia formidvel sobre o beb! J pensaram em alguns nomes para ele ou para ela?
 Ainda no, Donna  respondeu Teri.
 Ele ser um bom pai  assegurou Alex Kingston.  Estou muito feliz que tenham se conhecido, que tenham se encontrado no amor, e que um beb esteja a caminho.
 Obrigada, sr. Kingston.
 Eu  que devo lhe agradecer. Jim passou muito tempo s fazendo dinheiro. E h outras coisas, mais importantes, do que o dinheiro. A primeira esposa de meu filho...  Interrompeu-se, sorriu e tocou a mo de Teri.  Ora, no importa. Por que falar no passado? Vamos comemorar o presente.  mesmo um grande prazer conhec-la, minha cara.
A visita transcorreu em um clima caloroso e tranquilo, sem sobressaltos. Na opinio de Jim, foi um sucesso. E no apenas porque haviam conseguido ganhar a simpatia de Donna e de Alex, mas tambm porque, depois daquela boa experincia, Teri se sentiria estimulada para lev-lo a conhecer sua famlia.
Ela ficou mesmo mais confiante. Sabia que Jim iria ampar-la em qualquer situao. Isso a ajudou a tomar coragem e ligar para a madrasta, contando sobre a gravidez. Permaneceu decidida a no entrar em detalhes, deixando-os para uma conversa mais calma, numa visita futura, quando fosse apresentar Jim.
A madrasta reagiu de modo emocional. Parecia diante de uma doena, ou uma tragdia. Chorou e soluou do outro lado da linha, levando Teri a ficar sobressaltada.
Depois de ouvir diversas advertncias e censuras, ela foi obrigada a reagir, para mostrar que tinha uma vida independente e que a gravidez no a obrigava a se casar com o pai da criana.
A discusso foi ficando cada vez maior, insuportvel, a ponto de Teri ter de bater o fone no gancho.
Chorosa, naquela noite ela conversou com Jim sobre o que acontecera e pediu-lhe que esquecesse a visita  famlia Adams. No haveria nenhum encontro, pois estava desapontada e abatida. Em seguida, retirou-se, disposta a dormir.
No dia seguinte, sem que Teri soubesse, Jim entrou em contato com a sra. Adams. Tiveram uma conversa que mudaria o rumo da situao.
Mais tarde, ele lhe contou que tinha convidado os dois para um almoo na cidade, no domingo seguinte.
Teri sentiu-se trada.
 Voc conversou com eles? E disse que vai se casar comigo?
 Ora, querida, voc sabe que este  um assunto nosso. No faria nenhum sentido coment-lo com sua madrasta ou com seu pai. Alm disso, eu no diria que vamos nos casar sem antes pedir sua permisso para isso.
 Jura?
 Juro. Eu apenas disse que voc est muito abatida, numa situao delicada, no quinto ms de gravidez. Disse tambm que, se eles tm afeto pela filha e pelo neto, melhor seria que dessem todo o apoio e no provocassem discusses que pudessem aborrec-la.
"Mas  claro!", pensou Teri. "Quando se trata do beb, todo cuidado  pouco. Toda a ateno do mundo para a criana!"
E ela? Jim era o senhor de prontido para tudo o que dissesse respeito  proteo do beb. Teri quase odiou o companheiro, naquele instante.
Por fim, admitiu que a interveno de Jim fora boa, prtica e direta. Sem isso, tudo ficaria muito mais complicado, tanto com seus pais como com seus irmos. Sua famlia era muito querida, e ela no gostaria de deixar de compartilhar com os parentes aqueles momentos preciosos da gravidez.
No domingo combinado, os pais de Teri bateram  porta da casa da rua Jersey. Foram recebidos com alguma cerimnia. Entraram e ficaram admirados com o casario, a decorao, o piso de madeira. Quando chegaram  cozinha, maravilharam-se com os armrios e as divises, que guardavam tudo, pondo ordem no lugar.
Quando finalmente saram, Teri e Jim respiraram aliviados. Sabiam que ambos tinham ficado convencidos de que a gravidez da filha estava em boas mos.
Mas... por que o cuidado era sempre com o beb? Por que ele vinha em primeiro lugar?, Teri se perguntou.
Guardou, no entanto, essa queixa para si mesma, e refletiu que precisava lutar para manter-se saudvel, fsica e psicologicamente, e ter foras para enfrentar a realidade. At que o beb nascesse, no teria como comprovar que o todo cuidadoso Jim a amava de verdade. Mas no podia ficar obcecada, como se o beb fosse culpado por isso.
Jim estava sendo muito atencioso, amoroso e gentil. Na cama era bastante cuidadoso, em especial porque a barriga no parava de crescer.
Aos poucos, a sensibilidade normal de uma gravidez, que provocava lgrimas em Teri, foi diminuindo. Em parte porque ela conseguiu relaxar completamente, pois passou a ficar o tempo todo em casa, deixando o restaurante para Jim e Dayle.
Era fascinante ver o beb chutar a parede do tero. Jim ficava maravilhado com tal gesto, e tentava se comunicar com o filho.
A sra. Adams passou a ligar com frequncia, dando conselhos que ajudaram muito. Jim teve um encontro com os irmos de Teri. Apesar da amizade antiga com Wayne, eles ficaram impressionados com o novo companheiro da irm. Conversaram como velhos conhecidos.
O tempo passava cada vez mais depressa. No demoraria muito e chegaria o dia to esperado, do nascimento da criana.
Jim fez questo de levar Teri ao curso do pr-natal, na melhor maternidade da cidade, e reservou um quarto para a poca do parto.
Numa das sesses, mostraram, em vdeo, um parto natural. Ela achou que ter um filho desse jeito era um sofrimento, e no voltou mais. Mas convenceu-se de que estava preparada para todas as possibilidades, at mesmo para o parto natural.
No conseguiu assistir ao vdeo sobre cesarianas.
Mas acompanhou at o fim as aulas de respirao para grvidas.
Jim se envolvia cada vez mais com as rotinas da gravidez. No perdeu o vdeo sobre cesariana, e foi a algumas aulas sobre respirao.
Assim, entre uma atividade e outra, o dia previsto para o parto chegou.
E nada aconteceu.
Nos dois dias seguintes, a espera tornou-se ainda mais ansiosa. Teri parou de ir ao restaurante, passando os dias na casa de Jim. Mal podia enxergar os prprios ps, to grande estava sua barriga.
Todos os dias Jim lhe perguntava se comeara a sentir as dores normais ao trabalho de parto. O mdico avisara que no deixaria Teri passar do quinto dia, quando ento faria o parto induzido.
s oito horas do quarto dia, Jim a levou  maternidade. Ela j no conseguia respirar com facilidade. Foi encaminhada  enfermagem. Aplicaram uma espcie de gel em seu ventre, mas foi preciso esperar cerca de duas horas para que a substncia surtisse efeito.
Ao cabo desse tempo, nada aconteceu. Teri voltou ao quarto e encontrou Jim com a televiso ligada, assistindo ao jogo de futebol da sexta-feira.
Desligou o aparelho quando a viu chegar, com uma enorme interrogao no rosto. 
 No aconteceu absolutamente nada  ela anunciou, decepcionada.  Acho que o beb no quer nascer.
  s uma questo de tempo, querida. Vamos esperar mais um pouco. Ele vai acabar decidindo vir ao mundo  Jim comentou, dando-lhe uma piscadela, querendo elevar-lhe o nimo.
Por dentro, porm, tambm ele se sentia abatido. Um dia inteiro em trabalho de parto e no acontecia coisa alguma? Quanto tempo aquilo poderia demorar?
Lodo depois uma enfermeira entrou no quarto, para avaliar o estado de Teri, que em seguida, sonolenta, deitou-se para dormir.
A mulher dirigiu-se a Jim:
  melhor voltar para casa e adormecer. No vai ajudar em nada permanecer aqui. E, se ficar cansado, ser difcil ajudar sua companheira no momento do parto. O que acha mais importante?
Jim assustou-se com a possibilidade de ter que ir embora.
 Mas no quero deixar Teri sozinha!
 Voc pode telefonar e pedir notcias. Mas deixe seu nmero comigo. Se ela entrar em trabalho de parto, ligo no mesmo instante. Alm disso, Teri poder dormir mais tranquilamente sem voc por aqui.
"No v, Jim!", ela pensava, em meio ao sono. "No quero ficar sozinha..."
 Bem, se  o melhor que posso fazer agora, ento vou indo.
"No v!", pensou Teri.
Precisava contar o que se passava com ela. Revelar que se sentia assustada. Mas Jim reagiria como a enfermeira. Diria que era para o bem dela. Que devia descansar bastante, para o beb nascer sem tenso no dia seguinte.
Jim inclinou-se sobre a cabea de Teri e deu-lhe um beijo de despedida.
Ela quase chorou. Teria pela frente uma noite longa e solitria.
 No v... No quero ficar aqui sozinha...  conseguiu falar baixinho.
 No se preocupe. Quanto mais cedo deixar voc dormir, melhor. Volto num piscar de olhos, se telefonarem avisando que o beb est nascendo. At j.
 Sei disso, mas...  comeou Teri, tentando resistir  idia de ficar sozinha.
 Procure relaxar, durma um pouco e daqui a pouco nos vemos de novo  disse Jim, e beijou-a no rosto novamente.
Depois tomou o caminho da porta e saiu.
Teri no dormiu um minuto. Decidiu que odiava Jim, o beb e a si mesma. Sim, era uma felicidade ter um filho. Mas uma felicidade que precisava ser compartilhada.

CAPTULO XX

Jim tinha lido todos os manuais mdicos sobre o momento do parto, e se achava preparado para o que estava por vir. Sabia que Teri se sentia assustada com aquele momento. Odiou ter que deix-la sozinha, mas no ia discutir com a enfermeira as normas da maternidade, que lhe exigiam dormir em casa.
A contragosto, saiu do hospital, entrou no carro e fez o caminho de volta para o sobrado em apenas dez minutos. Estacionou o veculo na rua, em frente  residncia. Evitou entrar na garagem, pois assim poderia sair bem depressa, caso o chamassem da maternidade.
Precisava descansar o suficiente para retornar e acompanhar Teri e o beb, ainda de madrugada se necessrio. Tomou um banho e foi direto para cama. Estava agitado. Seus pensamentos e emoes no permitiam que relaxasse.
Continuava preso aos acontecimentos no hospital. Em vo tentou descontrair, e tudo o que conseguiu foi entregar-se a um sono leve, entremeado de reaes de susto que o levavam a despertar a cada trinta minutos.
Horas depois, quando a campainha do telefone soou, Jim chegou a pensar que fosse o despertador. Em seguida deu-se conta de que era o aparelho. Pegou o fone no gancho e ouviu uma voz perguntar por seu nome.
Era da maternidade. O relgio digital marcava trs e meia da manh. O que acontecera? Algo errado?
 Sr. Kingston?
 Sim, sou eu!
 Aqui  a enfermeira Nancy. A sra. Adams j est em avanado trabalho de parto.
 Cus!
As contraes vieram muito de repente, e tudo est acontecendo rapidamente. Se quiser acompanhar o nascimento, precisa vir bem depressa. Do contrrio, vai perder esse momento.
 Esperem por mim! Estarei a em cinco minutos!  exclamou ele, sem pensar que uma mulher grvida, prestes a dar  luz, no esperava por ningum.
Colocou o fone no gancho, levantou-se e trocou de roupa, descendo a escada como se fosse voar. Pegou as chaves e os documentos. Com as ruas desertas, levou seis minutos de casa at o hospital.
Entrou no elevador e pela primeira vez deu-se conta de como era lento. Isso  deixou ainda mais irritado. Quando alcanou o quarto, viu que a cama j estava vazia.
 Oh, no!  exclamou.
"Teri foi levada para a sala de parto!", pensou.
Ser que o beb j tinha nascido?
Por um momento pareceu ouvir um barulho no quarto ao lado. Vozes misturavam-s ao som de gua corrente, como se fosse um banho. Caminhou para l e encontrou a porta aberta.
Sentada numa cadeira de plstico, Teri recebia jatos de ducha quente na barriga. Seu corpo nu exaltava a figura de me e mulher, com os bicos dos seios apresentando duas grandes aurolas escuras e plenas, prestes a amamentar.
De seu corpo, quase estirado na cadeira, destacava-se o ventre alto.
Queriam que ela entrasse em trabalho de parto ali?, perguntou-se Jim.
 Teri! Aqui estou eu, meu amor. Diga-me... precisa de alguma coisa?  perguntou, ansioso.
Os olhos femininos procuraram os de Jim, mas no conseguiram se fixar neles. Era como se Teri estivesse sofrendo muito.
  horrvel, Jim!
 Sei como , querida  ele respondeu em tom solidrio.
 No, no sabe.  doloroso. Muito, muitssimo doloroso.
 Deixe-me tomar conta da ducha, enfermeira. Por favor  pediu Jim.
A enfermeira interrompeu o jato e entregou-o a ele, que imediatamente apoiou Teri nos ombros.
 Preciso de uma anestesia...  ela pediu com voz fraca.
 Enfermeira, depressa!  gritou Jim.
 O que foi?
 Teri precisa de anestesia. Est sofrendo muito.
 Vamos tir-la daqui e seguir para a sala de espera da cirurgia. Vou chamar a chefe da enfermagem.
Jim enxugou todo o corpo de Teri, deu-lhe um beijo no rosto e acalmou-a com um longo afago nos cabelos.
Ela continuou se lamentando da dor nas pernas e nas costas, pedindo anestesia e suando muito. Jim continuou insistindo que estava ali para ajudar em tudo o que fosse necessrio, enquanto a levava, na cadeira de rodas, para a sala de espera.
Mas logo perceberam que no haveria tempo para a anestesia. O beb estava prestes a nascer. O trabalho de parto comeou quando chegaram  sala.
 Teri, meu amor, precisa se concentrar no beb...
 Concentrar? Como? Com essa dor?
 Vou chamar o mdico  disse a enfermeira.
 Diga a ele para no me abandonar, Jim!
 Tudo bem, querida. Ningum vai abandonar voc. Estou aqui, e a amo como nunca amei ningum na vida!
 Isso no pode ser verdade...  queixou-se Teri.
Jim continuou a massagear-lhe as costas, em crculos lentos, procurando aliviar-lhe a dor.
 Mas  claro que  verdade. Amo voc, Teri, mas vou odiar o mundo se voc morrer em meus braos. Agora seja uma boa menina e concentre-se na respirao, para ajudar a colocar o beb para fora. Ele precisa vir ao mundo com sua fora...
 Oh! Est dizendo que me ama s... Ah! Minhas pernas esto doendo!  reclamou ao ser transferida para a cama de parto.  Voc nunca me amou, s ao beb!
 Isso no  verdade, querida.
 E sim, claro que ...
Teri tentou se colocar numa posio mais confortvel, para respirar com regularidade.
 Meu amor, voc  nica na minha vida,  tudo de bom que poderia ter me acontecido!  reagiu Jim, em meio aos sentimentos negativos de Teri.
 Mentira. Sempre se preocupou apenas com o beb!
 No, meu anjo  ele falou baixinho, perto de seu ouvido.  Nosso relacionamento sempre teve muito mais do que sexo. H o meu amor por voc, e o beb  uma prova viva disso.
 Mas voc no quis se casar comigo antes da gravidez...
 Eu no sabia o que estava fazendo, querida. No queria admitir quanto voc  importante para mim. Pensei que fosse o beb quem nos ligasse. Mas  voc que une os trs!
 No acredito numa s palavra...
 Juro pelos cus, Teri. Amo voc mais do que minha prpria vida  confessou Jim, quase em lgrimas.
 No falou isso antes...  sussurrou Teri.
 Mas disse depois do ultra-som!  exclamou Jim, passando a mo nas lgrimas que escorriam no rosto dela.  E estou falando agora.
 Voc... no... me ama  balbuciou Teri, quase sem conseguir pronunciar as palavras inteiras.
 Mas que teimosia! Pergunte ao meu pai. Pergunte aos seus pais. Eles sabem que amo voc! Fui  luta para provar ao seu pai e  sua madrasta que a amo sem nenhuma sombra de dvida, e deixei isso claro para seus irmos, quando a vi insegura. Disse-lhes que estava assim por causa do canalha do Wayne!
 Wa... y... ne?  tornou a balbuciar ela.
 Mas  claro! Ele a deixou assim, insegura e assustada, a ponto de no querer voltar a confiar em um homem, mesmo que ele se apaixone por voc. Esse sujeito nunca amou ningum, exceto a si mesmo!
 E voc? Casou... com Serena... s trs meses depois de...
 Fui um tolo  ele falou enquanto esfregava as costas femininas, para anim-la.  Casaria com voc e jamais me divorciaria se tivssemos nos conhecido antes. Estaramos casados no civil, se tivesse concordado.
 Ento... d seu nome... ao beb!  disse Teri, em prantos.
 Ele ter o meu sobrenome e o seu, querida. Mas, agora, s precisamos esperar por nosso filho.  Sorriu.  Agora entendo por que Mavis estava to preocupada com isso...
 Quem... ... Mavis?  perguntou ela, em meio aos espasmos do trabalho de parto.
 Trabalha para mim. Uma boa pessoa. Sabe que estou apaixonado. Mal consigo trabalhar, de tanto pensar em voc.
 Apaixonado?
 Tentei pensar em tudo. Tudo! Para manter voc por perto e fazer com que confiasse em mim. Estou aqui porque quero ficar para sempre ao seu lado. Se isso no  amor, o que , ento?  indagou ele, quase em desespero.
 E pelo beb. Voc... faz tudo... pelo beb.
Suas dvidas ainda a atormentavam. E deixavam Jim atnito.
 Pelo beb tambm. E parte de voc, de mim, parte de ns dois. Mas, mesmo que no houvesse um beb, eu a amaria. Voc transformou meu mundo, fez com que eu me sentisse bem, em paz com a vida.
 Sim... sei como  isso...  respondeu Teri, devagar.
 Por favor, pea a eles para fazer parar essa dor...
 Ns precisamos de ajuda! Por favor!  Jim pediu.
A enfermeira apareceu com a boa notcia:
 O mdico est chegando, para fazer o parto. Vamos coloc-la no balo de oxignio. Vai melhorar a respirao dela.
 Graas aos cus!  exclamou Jim, enxugando o suor do rosto de Teri.
 Respire fundo  orientou a enfermeira.  Prenda a respirao e empurre para baixo. Force sua barriga para baixo, Teri! Muito bem, isso mesmo.
 Mas di...
 A cabea est aparecendo!  disse a enfermeira.
 Daqui a pouco vai se sentir mais leve, no se preocupe.
Teri respirava com a ajuda do balo de oxignio.
Por um momento Jim achou que estivesse desfalecendo, de tanta dor.
A enfermeira segurou-lhe os pulsos e levantou seus braos, o que fez Teri reanimar-se e continuar a respirar com ritmo, sem o balo de oxignio.
Jim continuava a massagear-lhe costas e nuca, ombros e braos. O que mais podia fazer para provar que a amava? Ser que acreditaria nele agora?
Uma onda de tenso passou pelos nervos de Jim. Estava prximo de explodir. Percebeu que captava toda a tenso de Teri.
Respirou fundo, para relaxar, e continuou a massagear as costas da mulher de sua vida.
Os braos de Teri enlaaram com fora seu pescoo, e uma onda contnua de espasmos tomou conta do corpo feminino. Jim passou os braos por baixo dos ombros de Teri e segurou-a com firmeza.
 Pressione com fora, mas no de uma s vez, querida.
O mdico apareceu naquele momento.
 Ah! Ento o nenm est a caminho!  exclamou, satisfeito.
De repente, o restante do parto se completou. Jim segurava os ombros de Teri, e nessa posio no podia ver com preciso o que acontecia. Mas no havia tempo para mudar de postura.
Tudo estava acontecendo diferente do que fora previsto nos ensaios e nas aulas. Todos falavam ao mesmo tempo, pedindo a Teri que fizesse fora. Jim repetia aquelas palavras, como se com isso pudesse lhe dar mais energia.
De repente, um corpinho pequeno, manchado de lquido esbranquiado e vermelho, foi aparecendo nas mos do mdico e rapidamente enrolado em panos. Em seguida, tesouras foram aplicadas no cordo umbilical, enquanto outra cortava a parte prxima ao beb.
Teri desabou no travesseiro como se fosse desmaiar.
 Acabou, querida. Nasceu. A dor terminou? Amo voc muito mais do que posso dizer!
Ela deu um sorriso plido, sem conseguir dizer uma s palavra.
 Nosso filho nasceu! O que temos a, doutor?  perguntou Jim, ansioso.
 Sr. Kingston, vocs acabam de ter uma linda menina!
O beb foi entregue aos braos do pai.
 Uma menina, Teri!  repetiu ele, encantado.  Ns tivemos uma menina!
 Oh, Jim! Olhe para o cabelinho... to preto e fino... ela  to delicada!  exclamou Teri, tocando a criana.  Importa-se que seja uma menina?
 Se me importo? Acho maravilhoso! Com um garoto, eu poderia fazer as brincadeiras que conheo. Mas uma menina vai me ensinar um mundo de coisas novas e maravilhosas! Como voc, Teri. Tudo parece motivo para comemorao. Vou comear de novo, e vou amar isso a cada minuto.
 Amo voc tambm, Jim!  exclamou Teri, segurando-lhe o brao.  Desculpe no ter visto isso antes. E que eu... s conseguia enxergar o beb.
Ele tomou-lhe uma das mos e beijou-a.
 Diga apenas que vai se casar comigo, querida.
 Claro que vou me casar com voc! E estou muito feliz por isso!
Jim soltou um suspiro de alvio enquanto seu corao parecia flutuar num mar de felicidade. Os dois deram uma gargalhada, exultantes pela vida que nascia.
Seus olhos se encontraram. Perceberam, um no outro, os sinais de uma felicidade que tinham por um instante esquecido.
Era um novo momento, que Jim nunca mais deixaria de lembrar.
Um momento quase perfeito.
Por longos minutos partilharam a sensao de viver numa mesma alma, aberta e amorosa.
Jim e Teri tinham finalmente entendido o que era a palavra amor.

CAPTULO XXI

Em seu quarto, Teri sentiu-se to entorpecida ao despertar que teve dvidas sobre se queria abrir os olhos para enfrentar o dia. Estava com a sensao de que precisava dormir mais vinte e quatro horas, embora no conseguisse se lembrar por que motivo se sentia assim.
Aos poucos percebeu que havia algo de muito agradvel para ser lembrado, e um sexto sentido indicou que seria timo acordar e descobrir o que era. Sua mo desceu at o ventre e ela se deu conta de que j no se achava alto, com o beb. Portanto, no .estava mais grvida.
Agora se tornara me. Tinha uma filha!, recordou-se.
Um sentimento de bem-estar invadiu todo o seu corpo e sua alma. Sentiu-se feliz como se tivesse encontrado a razo de ser.
Despertou de todo. Era um novo dia em sua vida. Abriu os olhos com rapidez, pensando na criana a que dera  luz.
Estava no apartamento privativo, que Jim lhe reservara. A luminosidade do sol clareava uma parte da parede lateral, e o jogo de luz criava desenhos multiformes em todo o quarto. Deteve o olhar no colorido provocado pelas flores em buqus e vasos distribudos no cho, formando um tapete de boas-vindas que a deixou ainda mais feliz.
Lembrou-se de que a enfermeira pedira a Jim para que fosse dormir em casa, e que falara tambm sobre o beb ficar no berrio.
Jim dormia no sof do quarto, a cabea inclinada para a frente, as pernas encolhidas. Apesar da posio incmoda, seu rosto estampava felicidade. Na noite anterior, ele reagira ao conselho da enfermeira, dizendo que no queria sair de perto da me de sua filha.
E no sara mesmo, constatou Teri. Passara a noite inteira a seu lado, no permitindo que ningum entrasse no quarto ou que o telefone a acordasse. Preocupara-se com ela, com seu bem-estar, com sua tranquilidade. E isso era bom. timo. Excelente.
Teri sentiu-se relaxada, confiante e otimista. No via a hora de cuidar da filha. Disse a si mesma que era uma mulher de sorte por ter encontrado Jim, um homem sensual e atraente, mas que sobretudo vinha se revelando muito mais atencioso do que podia imaginar.
Tinha um corao generoso, um carter forte e determinado, que o aproximava da teimosia. No se deixava intimidar por obstculos, quando sua vontade assim mandava.
Sentia-se muito ligada quele homem protetor, disposto a ampar-la em todos os momentos...
Teve um leve sobressalto ao ouvir uma batida na porta do quarto.
Jim despertou como um co de guarda, colocando-se de p num salto que denotava reflexo rpido.
 Ol, nova mame!  ele cumprimentou Teri.
Uma enfermeira sorridente entrou no quarto e dirigiu-se  cama.
 Que sono bom! Dormiu oito horas seguidas, sra. Teri Adams.
 Oito horas? Ento agora devem ser...
 Duas da tarde. E hora de sua pequerrucha mamar. E, por falar em refeio, voc perdeu o almoo  comentou a mulher, prestativa.  Quer que lhe pea algo para comer antes de trazer o beb?
 Hum... ch com torrada!  respondeu Teri, que estava sem apetite para um prato tradicional.
 Boa pedida  aplaudiu a enfermeira.
 Por favor, queria muito ver minha filha. Pode traz-la, para ficarmos mais tempo com ela?
 Mas  claro! A nenm vir daqui a pouco, no se preocupe.
Jim levantou-se para pegar uma sacola de compras e entregou-a a Teri.
  algo que comprei para voc vestir no hospital.
 Para mim?  perguntou ela, abrindo o presente.
Aos poucos, foi aparecendo um lindo roupo rosa e azul-claro, com grandes bolsos e um belssimo par de chinelos do mesmo tecido. Nos bolsos, estava bordada a logomarca do restaurante Corao Feliz.
Teri foi tomada de uma emoo imensa ao ver o desenho dos dois coraes vermelhos, cada um mostrando um "rosto" sorridente. Lembrou-se que havia acusado Jim de no lhe comprar nada, de tampouco am-la. O roupo com os dois coraes bordados era uma prova de que ele se preocupava com seu bem-es-tar. Aquele homem maravilhoso ocupara-se em mandar fazer um presente personalizado, s para ela...
Sorriu para Jim, e o fitou como se fosse a primeira vez.
 Adorei o presente, amor. Muito obrigada. No apenas pelo roupo, mas por tudo o que tem feito por mim.
Desejou ter algo a oferecer a ele, como lembrana do dia de nascimento da filha. Dessa forma, demonstraria que Jim era uma pessoa especial, nica em sua vida. Mas tudo o que conseguiu foi estender os braos e acolh-lo, recebendo um longo beijo que selava o prazer que sentiam em estar juntos.
 C estamos, mame!  exclamou a enfermeira antes de entrar no quarto.
O beb estava chegando!
Jim aproximou-se depressa, para observar melhor a criana. Apanhou-a das mos da enfermeira e, com muito carinho e cuidado, aproximou o rosto do dela. Deu-lhe um beijo na testa. Em seguida passou-a para o colo de Teri.
 Ela ainda est dormindo  sussurrou.
Teri acolheu a filha como se fosse desmanchar de emoo. Seu corao batia forte, tamanha a excitao e o contentamento.
 Ela  to lindinha!  exclamou, com uma expresso radiante e iluminada.
 E verdade. E mesmo linda  concordou Jim, aproximando-se da me e da filha.
Teri observou o sorriso brilhante daquele homem e lembrou-se de algo importante, sobre o que ainda no tinham pensando.
 Como vamos chama-la, Jim?
 Voc escolhe. Afinal, teve muito mais trabalho, da gestao ao parto, do que eu. Assim, merece escolher.
Teri bem sabia como isso era verdadeiro. As dores do parto ainda estavam gravadas em seu corpo. Mas preferia esquecer essa parte da histria da gravidez e cuidar do captulo que se abria  sua frente: ser me daquela linda menininha, a garota de Jim.
 Acho que prefiro que voc escolha o nome dela  disse, com um sorriso.
Aquele era o presente que desejava dar ao companheiro.
 Gosto muito de Lucy... O que acha?  ele props, devolvendo-lhe o sorriso.  Cada vez que olho para ela, o nome Lucy me vem a cabea!
 Ento, que assim seja! Lucy Kingston... Hum, parece soar bem...  respondeu Teri, e logo em seguida continuou:  Voc pode arrumar os papis para o casamento na segunda-feira? O registro de Lucy pode esperar seis dias. At l, j estaremos casados.
 Est falando srio?  perguntou Jim, ampliando o sorriso.
Mal podia acreditar no que acabara de ouvir.
  claro! No precisamos marcar o casamento com muita antecedncia. Podemos convidar um celebrante oficial, e fazer a cerimnia na praia em frente  residncia de meus pais, na baa Bateau. Podemos preparar tudo com calma.
 Um casamento na praia  uma idia fantstica!  Jim exclamou, e com tanto entusiasmo que despertou a ateno de Lucy.
A garotinha olhou para o pai.
 Olhe s! Veja como seus olhos brilham, tentando me ver!  exultou.
Teri estava radiante com a alegria de Jim em relao a Lucy. Tinha certeza de que ele seria um pai dedicado e carinhoso com a filha.
Lembrou-se da expresso "Minha querida filha" escrita na capa do carto de felicitaes que recebera dos pais, no aniversrio de trinta anos. Sentia, agora, que seu presente de aniversrio estava completo. A chegada de Lucy era a melhor coisa que lhe acontecera.
 Minha madrasta e papai disseram quando viriam nos visitar, quando voc ligou para eles?
 Estaro aqui esta noite. No imagina como se sentiam ansiosos. Mal podiam esperar para conhecer o novo membro da famlia. Seus irmos e suas cunhadas tambm queriam vir para c, mas sugeri que talvez fosse melhor amanh. Reunir todo mundo no quarto, ao mesmo tempo, seria um pouco pesado para voc. O que acha?
 Acho uma tima idia. A ltima coisa de que eu gostaria agora seria ter um grupo muito barulhento. Isso pode assustar Lucy.
 E sabe da maior? Dei uma idia para Dylan, Charles e Mike. Eles vo colocar um adesivo no vidro da porta, dizendo: " uma menina!" Vo aparecer aqui esta tarde.
Teri sorriu.
 Esses dois vo fazer questo de ser tios de Lucy  comentou, feliz, dando-se conta de que Jim estava sendo bom e generoso, arranjando tudo.  Voc andou preparando todos os detalhes, no foi?
 Quem? Eu?  ele respondeu com um ar inocente.
  seu jeito especial.
 Meu... o qu?
 As flores, as visitas, meu roupo, seus presentes e surpresas, a energia que irradia... Voc  realmente um homem especial.
 Como assim? Que brincadeira  essa?
Teri levantou a mo em direo a Jim, e ele a pegou como se fosse a primeira vez, com charme e carinho.
Ela sentiu que a energia daquele homem entrava em sua mo e subia pelo brao, atingindo seu corpo por inteiro, como muitas outras vezes j acontecera.
Ser que Lucy tambm sentiria a energia do pai?
Seu toque era como uma usina de fora. Uma fora alimentada pelo corao.
 At encontrar voc, toda minha vida tinha sido como um quintal sem flores. s vezes havia um pouquinho de fruta, e, outras, at mesmo algum perfume...
  mesmo?
Jim escutava atentamente o que Teri dizia, e isso a estimulou a continuar:
 Depois de conhec-lo, comecei a ter pequenos prazeres que no conhecia. Voc despertou muita coisa em mim. Coisas que eu nem imaginava existir.
 Isso me deixa comovido, meu amor.
 Senti um sabor especial quando fui para cama com voc pela primeira vez. E continuo a senti-lo.
 Teri, eu...
 Deixe-me continuar. Na verdade, acho que ter ficado grvida de Lucy no foi um acidente. Foi a consequncia natural dessa coisa misteriosa, meio mgica, que nos une e que tornou tudo isso possvel.
 Sabe de uma coisa? Acho que tem razo.
 Claro que tenho!  Teri sorriu e aconchegou mais a filha contra o peito.  Sinto uma energia muito forte fluindo entre ns. Vem de voc, passa para mim e para Lucy.  como se os sentimentos estivessem flutuando  nossa volta, tornando tudo mais bonito. Isso faz sentido para voc?
 Faz muito sentido, querida... Acho que, ao dizer como se sente, voc definiu exatamente como eu tambm me sinto. No imagina como isso me deixa feliz.
Num nico movimento, os dois se aproximaram da menininha que haviam gerado com tanta entrega e prazer.
Seguraram Lucy nos braos e entreolharam-se profundamente. Teri aproximou os lbios dos dele e deu um beijo longo e sensual no companheiro.
Ambos sabiam que tinha ocorrido uma transformao mgica, um milagre. No conseguiam expressar isso em palavras, mas sentiam como parte de seu amor.
Na verdade, os trs estavam participando de um milagre. O milagre da vida. O milagre do amor.

FIM
Dicas

 aconselhvel aquecer o corpo quando se tem febre?
E sempre bom ficar agasalhado. Mas tambm no  preciso encher a cama de cobertores ou aquecer o quarto demasiadamente. O importante  voc se sentir confortvel. Seu prprio corpo dar a medida.

Por que, quando tenho febre, sinto calafrios e no momento seguinte suo intensamente?
Isso ocorre porque, quando a febre se manifesta, a temperatura de seu corpo no aumenta de forma contnua. Ela oscila. Quando sobe, voc sente calafrios, que podem ser intensos ou no. Quando a temperatura comea a cair, a tendncia  surgir o suor to comum em pessoas febris.

Uma febre pode cessar e voltar? Quando isso ocorre?
Sim. O exemplo mais clssico  o da febre que acompanha a malria; ela pode continuar se manifestando mesmo anos depois de a pessoa ter deixado a regio de incidncia da molstia. Verificam-se casos de febres recorrentes tambm em outras infeces crnicas e, s vezes, mal a pessoa se recupera de uma infeco e j surge uma nova, causada por um micrbio diferente.

A febre deixa sequelas?
No. As leses que possam surgir depois das febres  altas ou no  so causadas pela doena propriamente dita, e no pela temperatura elevada.  verdade que febres, por mais leves que sejam, deixam a pessoa debilitada por alguns dias. Febres muito altas, superiores a 41C, podem ocasionar convulses e leses cerebrais; felizmente, so muito raras.

 verdade que no se devem fazer exerccios fsicos durante o perodo de febre?
Sim. Quando a febre se manifesta, o organismo est avisando que uma infeco est comeando a se estabelecer. Ela pode se alastrar se for dispendido muito esforo fsico.

EMMA DARCY foi professora de ingls, francs e computao antes de se casar e ter filhos. Morando com a famlia em sua comunidade dedicou-se  pintura e  decorao de algumas casas enquanto cuidava dos trs filhos e participava da vida social com o marido Frank. Sempre gostou muito de falar com as pessoas e foi a que encontrou o ambiente para dedicar-se aos romances de fico, onde criava os prprios personagens. Ela gosta de viajar e suas experincias, em geral, aparecem nos livros. Emma Darcy mora em New South Wales, na Austrlia.
